A volta

Que mistérios tem a volta? Sou apaixonada por danças tradicionais e uma coisa que adoro nelas é o recorrente movimento de voltar. Vou ali e volto, vou à frente e volto, volto e apanho uma direcção, volto em roda e mudo o sentido da roda, volto com o meu par, à volta do meu par, no meio da roda, fora da roda, volto só com uma perna, ou com uma perna e com a outra, volto para ir ter com outra pessoa, volto à volta de uma outra pessoa e retorno à mesma, volto à volta de um centro vazio, volto à volta de mim própria, finjo que volto e não volto, finjo que não volto e volto, volto tão depressa que parece que não volto, volto tão devagar que nem parece que estou a voltar… a volta não é o regresso… quem volta não volta o mesmo, se vou e volto algo se passou enquanto fui e vim… apanhar o movimento da volta é fazer atravessar o corpo de não-narratividade… não há um momento certo de voltar, aliás, todos os momentos são errados se estivermos à procura de justificações para voltar, a volta já está inscrita na ida, tem que se fazê-la desabrochar não desconsiderando o seu potencial.. a volta é feita a tempo, no contratempo ou algures a descair para mais perto de um ou de outro, a um tempo, a dois tempos, a três tempos, a quatro tempos, a mil tempos… mas sabemos quando é que tem o sabor especial de uma volta perfeita… essa sensação de sermos profundamente nós sem qualquer arrasto do que fomos ou antecipação do que vamos ser… vamos voltar a fazer o pátio, vamos voltar a fazer o Pedras, vamos voltar a fazer o c.e.m, vamos voltar a fazer quem somos momento a momento sentindo as tensões dos fios que nos ligam ao mundo aqui e agora, somos um charco ansioso por vir a ser mundo ansioso por vir a ser charco, e no espaço-entre jogamos as nossas voltas, voltamos para nós próprios, para casa, para fora de casa, para o outro, para o mesmo, para nada… jogamos as nossas voltas como uma dança sem fim, descobrindo à vez a abertura da chegada ou o enrolamento da partida, a abertura da partida ou o enrolamento da chegada… voltamos todos juntos numa célula pulsante, voltamos dentro da volta, criando forças desmedidas para serem pensadas, e nem por isso ficamos tontos… só fica tonto quem quer conhecer a volta com as pinças da inteligência… quem se atreve realmente a voltar não fica tonto, mas também sabe que o caminho que trilha nessa volta nunca poderá explicá-lo a ninguém…

o ano passado escrevi qualquer coisa como: só o corpo pode conhecer porque só o corpo é que atravessa… hoje, voltando das “férias” desconfio que só o corpo pode aceitar o desafio de ir porque só o corpo conhece os mistérios da volta.

vou e volto

margarida

2 comments

  1. sofianeuparth

    estonteante e vertiginosa a tua escrita
    a teu lado o soluço da volta, o suspenso do que não sabes como se suspende, a onda que nunca volta como foi, que não é a mesma a não ser no misterio de ser onda que vai e vem
    sem prisões, sem grilhões, numa liberdade que não se contrapõe à redução da potência
    liberdade na ventania do salto sem fim nem princípio
    obrigada margarida

  2. elisabete

    Só o corpo conhece a volta, só o corpo fica tonto, e volta a ficar ou não.
    A volta também dá alento e expectativa que se entranha e nos deixa ser gente e nos deixa perdoar e esquecer as idas que não chegaram ao porto e valorizar o voltar a ir e a vir.
    Obrigada Margarida. Vamos voltar a fazer, a falar e a dançar.

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