viajar

Entrei nos contos da piedade. Abre e abre uma história no tempo e venho viajante na sua casinha em sítios que no agora vão além de 6 de agosto de 2013.

Entrámos pelas novas tecnologias. O telemóvel. Estava a tentar-lhe explicar como podia ver o saldo. 1,2,3, saldo, 5,77. Os dedinhos sem pontas tentavam em meias pontas pressionar o teclado, com a visão dos seus pequeninos olhos. Não percebo nada, diz. Enviei-nos até à minha idade de 88 anos, idade actual dela. A imaginar os meus netos a explicar-me num ecrã que se abre no ar, cheio de páginas e novas modalidades muito rápidas e a dizer-lhes, não percebo nada. Ria-se, olhando-me velhote com os óculos dela na cara.

Como foi lidar com os eletrodomésticos? A minha primeira televisão era a preto e branco, comprei-a quando ganhava 600 escudos na fábrica. Depois o meu cunhado deu-me uma a cores. O frigorífico comprei por 200 escudos, foi a minha irmã que me ajudou, e pagava-lhe às prestações de 5 escudos por mês. Antes disso comíamos as coisas no próprio dia. Os vegetais era a minha mãe que trazia da sua venda, fazia uma sopa de dois em dois dias. No dia seguinte para não azedar fervia-a, logo quando se levantava às 6 da manhã. O leite trazia-o eu para o filipe, depois de ter feito a distribuição, meio litro. Ia busca-lo cedinho a uma quinta que agora é o areiro, e vinha a pé a vende-lo às pessoas.

No 25 de abril, o meu outro filho ouviu na rádio que era o 25 de abril. Atirou-se para cima de mim e deu-me um abraço, ainda estava na cama. Disse para não sair de casa. Não te preocupes, vou à fábrica ver o que se passa. Apanhei o autocarro no martim moniz, atravessei a rua do arsenal e fui ao mercado da ribeira, para fazer as compras do almoço que iria prepara na fábrica.

Lembrei-me que a ilda do centro de dia, nesse mesmo dia foi trabalhar com o marido para o mercado, fiquei a imaginar que se viram nesse dia.

Cheguei lá e as pessoas das bancadas diziam-me que se tinha dado um golpe de estado, que a rua do arsenal estava interrompida. Não tinha dado contada de nada, acabei de lá passar.

O chofer veio-me buscar, e levou-me para a fábrica, eu gostava muito deles, eram boas pessoas. Um comia um cabrito inteiro, era muito gordo, outro fazia-lhe impressão descascar pêssegos, então tirava a casca do pêssego para ele comer e outro era diabético, fazia-lhe comida especial. Eles gostavam muito de mim. Todos gostavam de mim, pois gostava de estar com as pessoas. Havia lá umas que tinham muita inveja e falavam mal, mas não me importava, pois não era verdade.

Gostavam tanto de mim que numa casa onde servia, a patroa deixava-me ir sozinha às compras, tinha 12 anos. A mãe dela dizia-lhe para não me deixar ir sozinha, que era muito miúda. Ela respondia que não se importasse, pois a miúda se orienta melhor que eu. E era assim, chegava a casa e trazia tudo certinho. Está a ver como ela é orientadinha.

Era sim senhora. O meu patrão às vezes pedia para o ajudar a encher garrafas de vinho e por passas em cada uma das garrafas. Uma noite depois do jantar, perguntou-me se tinha as garrafas lavadas, disse-lhe que sim. Então vai buscar as passas e vem ajudar-me a encher umas garrafas de vinho. Mas as passas já não havia, um dia tive muita vontade e comi-as todas, soube tão bem! Então vais buscá-las de castigo, ali na pastelaria mimosa, que ainda lá está na graça.

Eu passo muitas vezes por essa pastelaria quando vou para casa.

A senhora disse para ele me levar de carro, pelo menos. Era castigo, que fosse a pé. Lá fui eu, de noite, mas ele veio dentro do carro devagarinho atrás de mim, e quando ia a pagar as passas, estava ele a rir-se imenso e a pagá-las.

A minha mãe vivia numa miséria, um dia, eu já tinha aprendido a escrever, numa escola em campo de ourique, e enviei uma carta ao meu avô, que estava viúvo na época, a contar o que se passava, e ele enviou dinheiro num envelope para ela ir viver com ele até se organizar. Veja lá que naquela altura envia-se dinheiro pelas cartas…

Vi a piedade, estava num bosque meigo, vestida de camisa de dormir, clara, cabelo branco, sentada num tronco velho e musgoso. A janela abriu-se suavemente e o sol aqueceu-lhe os joelhos. Dei-lhe muitos beijinhos e levei-lhe uma ave-do-paraíso. Esperou que uma pena caísse e escreveu na casca das árvores uma história, que são várias. Das palavras saiam brotos, dos brotos frutos e dos frutos uma canção que chamava os espíritos dos tempo. Veio sua mãe, os seus irmãos e seus filhos. Beijaram-na e deram-lhe um presente envolto num laço verde, da cor da blusa que a mãe lhe tinha costurado quando pequena. Abriu-o e era uma carta, estava escrito, és tão querida. Olhou, dobrou e fez um pássaro de papel, soprou-o e viajou ao cimo mais alto do bosque, voltava e contava as histórias que tinha visto.

A piedade abraçou-me e deu-me uma maçã e um bolo de manteiga, disse que não me deixa-se  de amar e de amar. Sorriu-me e foi dar comida aos animais da terra. Subiu a árvore, criança aventureira, pegou num galho e brincava com o mundo.

Com o galho abriu o tempo, viajando de um lado para o outro sem sair da árvore. Cresceu e deu o galho a quem quiser com ela se demorar a sentar no ramo da árvore da sua aldeia e do zé do telhado. Onde o tio ainda hoje galopa, justiceiro, sobre o dorso de um cavalo grande.

Que fazes ai rapariga?

Conto vida senhor. Conto vida.

pedro

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