só o corpo pode não-ser

Dos segredos que me contei ontem à noite antes de adormecer com os acordes destes quatro dias de práticas de criar corpo-acontecimento com a sofia:

A capacidade  de manter o equilíbrio pelas tensões, no intervalo de pulsação da vida… demasiado para lá, demasiado para cá e a pergunta margarida deixa de poder pulsar… confiança na sustentação do universo… a mesma força que não deixa cair o pescoço da girafa também não deixa cair a terra pelo espaço… somos atravessados por movimento constantemente… somos esta matéria viva pelo movimento que a percorre, mas é da natureza do movimento ser invisível e incompreensível, e portanto não adianta tentar vê-lo ou compreendê-lo… quanto tempo mais continuaremos fascinados com a redução e o controlo? quanto tempo mais continuaremos chamando a nós o dever de retirar tudo o que não se compreende e não se vê para que serve, quando é precisamente dos intervalos do que que se vê e compreende que brota o que pode ser visto e compreendido… temos olhos para lidar com o visível e pensamento para compreender o que vemos, mas são eles também que podem lidar com o invisível e o incompreensível… pois só o olho pode não ver, só a compreensão pode não compreender… só o corpo pode não ser… esse não ser não é a anulação do ser, é a sabedoria das tensões que sustentam a vida… é não ancorar o eu na justaposição de provas sucessivas de existência coladas umas às outras numa construção que reivindica que existe porque conta uma história… é deixar aparecer os espaços-entre, sentir o movimento, atravessar e ser-se atravessado, ser eu e não-eu, ver e não-ver, compreender e não-compreender…

A boca entreaberta está sempre a meio caminho de se fechar ou abrir, é a medida do beijo, tênsil, táctil… é a mesma força que me permite ter os lábios entreabertos, que não deixa cair o pescoço da girafa ou impede que a terra caia pelo universo abaixo…

Só posso ser eu se for não-eu, se assistir a cada momento ao brilho da nova forma que se configura eu… de onde apareceu? do não-eu que também sou eu… do espaço entre, do que não sei, não compreendo, não vejo… e nem por isso reduzo, colapso, digo que não é nada… só o corpo sabe o inexplicável que é poder sustentar-se no ar, só o corpo sabe que não há explicação para esse momento… há um roçar subtil num segredo…

Só o corpo sabe que há coisas cuja natureza não é explicativa: são as coisas que se explicam quando não-são, isto é, na parte inseparável de não-ser que as constitui. Só  corpo sabe que não-é, e só por ele posso experienciar a inebriante sensação de ser…

só os olhos podem não-ver

só o corpo pode não-ser

margarida

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