rugas da cidade:a livraria sá da costa, a casa polycarpo e a isabelinha roqueira

ontem estive na cruz dos poiais, na taberna da isabelinha. ainda não me tinha lá demorado desde o festival e as saudades começaram a puxar-me para aquele canto do mundo. parece que cada dobra desta cidade tem uma sabedoria própria, uma forma especial de regar conhecimento e de abanar a vida como os lençóis a ondular no estendal.

depois de termos estado em vigília no domingo passado e assinado o manifesto de estupefacção perante a exterminação das rugas de lisboa, ontem corria a notícia que a c.m.l. tinha aprovado por unanimidade a classificação da livraria sá da costa, em processo de encerramento e liquidação, como imóvel de interesse público. parece até que o  manuel salgado reforçou que a “defesa das lojas de tradição é uma preocupação expressa no plano diretor municipal (PDM)” e que estão identificados “170 estabelecimentos comerciais espalhados pela cidade nessas condições e que têm proteção patrimonial particular”.

pois

infelizmente parece que esses 170 estabelecimentos estão mesmo já na linha da morte e que, vá-se lá saber com que descaramento, “ninguém pode fazer nada”…esta classificação da sá da costa não garante que o espaço seja respeitado, é mais uma lápide que fica bem do que uma medida que nutra o respeito por estas dobras que criam humanidade, que escrevem as histórias das pedras e das pessoas.

insisto que não sou a favor da preservação em abstracto.

cada forma de vida tem a sua vibração e o prolongamento dessas vibrações para lá da sua capacidade de se gerarem a si próprias, para lá do segredo de existir, parece-me terrível…

mas olha lá a casa polycarpo aqui na rua de são nicolau, fundada em 1822, e toda dinâmica, cheia de vida, comum site actualizado, com um ritmo animado, um fluxo constante de clientes que procuram aquelas facas e aquelas tesouras que não se desfazem ao fim de 3 cortes. não é uma casa para turista ver, é uma insistência que via passar fernando pessoa e outros cidadãos de lisboa e que agora está para extermínio.

talvez os hotéis de charme tenham depois uns albuns de fotografias ao lado do r.i.p. “aqui jaz um coração da cidade “.

o carlos simões, que não é senhor, é só simões ou só carlos, agarrado ao seu copo de vinho, não se deixa calar. então a livraria sá da costa tem os melhores conteúdos do país, diz ele, e vão deixar fechar aquilo. a cidade transforma-se num conceito de cidade, como o tomate que comemos se fez conceito de tomate e nós conceitos de seres vivos.

parece tomate mas não é. pois na taberna da isabelinha parece taberna e é.

até dá para me deixar ficar a estudar para o curso de corpo que estou a preparar… e olha que não me é fácil encontrar lugares que não me entopem o pensamento enquanto leio-escrevo-danço. é a tal sabedoria das rugas, a capacidade que a dobra tem de ampliar a superfície de encontro sem se colapsar nas voltas…

chega o manel do pavão chico. vem todo azul, olhos, camisola, aura, tudo azul. o pavão está na muda das penas, diz a isabelinha que é sempre entre julho e agosto que fazem a troca daquela plumagem linda. por entre as garrafas, atrás do balcão, uma ou outra pena azul brilhante espreita.

o manel vem com um bocado de chuveiro “que aqueles homens” dão cabo de tudo, os do albergue, se o chuveiro não vira para continuarem a ensaboar-se fazem-no virar à força….estende a mão por cima da pedra e logo se aninha o cálice de aguardente com gelo.

a isabel foi a semana passada a faro para a concentração de motards, ena que máquinas lindas ali viu. é a alma roqueira que não tem sossego,no outro dia até levou a sogra ao 2001.

as uvas dos azulejos acariciam-me a estadia. uma sensação muito familiar,muito sumarenta se faz presente no corpo…a mesma de quando me demoro perdida nos livros, aquele silêncio misterioso de estar a viver um momento especial.

hoje acho que vou ficar em casa nas minhas escritas e estudos. o cavalinho de madeira sorri ensolarado pela luz da manhã, lisboa está desassustada neste momento, cheira a café  e cada contorno dos livros, dos lápis me parece precioso, a gata muni espreguiça-se deliciada, sei que gosta de me ter aqui, o andré ainda dorme, o mapril da oficina conversa com o senhor manel, veio agora de umas férias no campo, diz que é preciso ir ao campo às vezes, foi na carrinha grande. as folhas da palmeirinha cica esticaram-se com a rega.  preparo o curso “práticas de criar corpo-acontecimento”. como qualquer outra coisa que existe em liberdade, a matéria do curso podia aparecer já hoje,está no ar, na dança a que me dedico há 30 e tal anos…pois, mas o tempo de me deixar entrar, sem pressa, de me alongar por entre esses conteúdos fascinantes, é de uma riqueza impressionante. não estudo para acumular informação, estudo escutando e saboreando a sabedoria das dobras.

até já

sofia

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