se gosto, gosto, se não gosto não estrago

aqui trago momentos de uma destas maravilhosas tardes em casa da dona piedade, chegar, abraçar, escutar, abrir as janelas, sacudir os lençóis, pentear os cabelos, não ter pressa:

que a casa não era assim, quando foi das obras é que cortaram 60 cm à casa, mas não foi só ao quarto do meu filho, foi cozinha e tudo, que agora quase nem consigo passar para o meu quartinho. saí daqui dia 4 de maio, estive 2 anos fora a viver com a minha irmã que tinha sido operada, e só voltei dia 6 de agosto. este aqui de cima não tinha para onde ir, ficou sempre aí com as obras e tudo, nem sei como vivia.

eu era muito amiga da rapariguinha que morava aqui que levava tanta porrada do marido que até apanhou um cancro no ouvido e morreu, uma menina que parecia um anjo. um dia deixou o ferro ligado no chão, eu cheirava-me muito a queimado e a fumarada já ía na escada toda. uma vida miserável era a dela mas tão boa mocinha, há gente que não tem sorte nenhuma. o homem era o pai das filhas dela mas parece-me que não devia ser mesmo o pai que ele era preto escuro e elas todas loirinhas e isso dos genes deixa sempre um rasto. só aqui no largo havia três padarias agora para se comprar pão é preciso ir ao samouco. se a sofiazinha depois me fosse ali buscar umas carcacitas.

vivi em casa da minha irmã que era no prédio desse paulo portas que, não desfazendo, até era boa pessoa que até me ajudava sempre a levar os sacos para cima. a minha vontade, se as pernas deixassem, era ir lá para a porta da assembleia falar com ele. então não me conhece? levava-me sempre as compras pela escada acima! mas o que é que lhe aconteceu? porque é que se fez assim? mas que ambição tão grande, que ambição tão grande! é um desgosto para a sua mãe você ser político.

é que ele nem é mau, mas a ambição dá cabo das pessoas, o outro é que é mau como as cobras, o passos coelho. aquilo quer é que os velhos morram todos, não quer saber, ainda no outro dia fugiu-lhe a boca para a verdade e disse que fazia isto tudo, esta porcaria que ele anda a fazer ao país, para o bem das filhas dele…depois percebeu o que tinha dito e juntou os jovens do país todo,mas isto é mas é mesmo para os bens das filhas dele e dos outros da laia dele.  agora juntaram as juntas todas aqui à volta não sei para quê. as raparigas da santa casa que fazem o apoio andam à toa a ter mais velhos ainda para ver e depois a ter que andar para trás e para a frente para ir buscar as coisas….olha,não percebo nada disto,parece que cada vez mais dificultam as coisas. então uma pessoa pode lá estar com não sei quantos velhos por dia e ainda perder o tempo a pé para voltar a buscar coisas…ainda no outro dia eu dizia à rapariga: traga a comida da dona maria aqui e põe aí no frigorífico já escusa de voltar para trás e perder o tempo no caminho…mas isso é que não….parece que nem têm ideia por onde é que elas andam…

é só palhaçada! outro dia até me queimaram aqui a minha camisa cor de rosa que faz tanta falta, a por p’aí umas luzes no largo, puseram tudo vermelho, que deve ser para os toiros marrarem, e depois uns manequins todos nus….

é que ainda se fosse alta-costura! mas não, estavam todos nus com umas riscas no peito…que eu não vejo nada daqui mas aquilo não era cultura nenhuma. ainda se cantassem ou dançassem, se fosse cultura… nada, uma palhaçada sem graça nenhuma, manequins de fio dental….é uma palhaçada e eu fiquei com a camisa toda esburacada. fez-me espécie os 2 polícias toda a noite ali de pé a guardar os mamarrachos.

quer almoçar piedade?

o quê, aquelas coisas sem gosto da santa casa? um arroz com 3 ervilhas?

eu faço-lhe um arrozinho bom.

e os ratos que passam nos canos e a casa rachada, e o filho mais velho que ela tanto ama e que nunca mais viu…e umas massagens suaves nas mãos e tanta ternura…pusemos a mesa e tudo para o almocinho, tudo a preceito como num restaurante, e eu que nunca mais fui a um restaurante.

tenho saudades da dona bárbara. e porque não lhe telefona? é para não gastar dinheiro e também ela pode estar lá deitada e não poder ir ao telefone.

então mas experimentamos, ela vai gostar de a ouvir, ligamos do meu.

tá, dona bárbara? sou a piedade. está melhorzinha? estou a ligar do telefone daquela rapariga que ía lá cantar no centro. eles agora vêm sempre cá a casa, e você? quem trata de si? pois. pois. eu também já não vejo para lhe ligar, ela é que fez a chamada.pois. também tenho estado muito mal. já há 4 anos que não saio de casa.ah sim? eu fiquei agora com as da Sé e até são boazinhas mas isto das freguesias está uma grande confusão. então e a dona edite? não ficou melhor do pé? ai tenho muitas saudades de falar consigo. sim. sim. está bem. até para a semana, as melhoras.um beijinho.

é muito boa pessoa esta dona bárbara. eu quando gosto gosto,se não gosto não estrago.

até já

sofia

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