coerência

neste momento pós festival pedras tenho andado muito pensativa. dou comigo tempos longos calada a olhar nada, tenho dificuldade em gerir a velocidade e a energia, preciso de falar devagar, de pensar devagar, de alentar-alentar-alentar. apurar a coerência que não é a repetição de comportamentos aceites como possíveis,exigir o rigor de uma coerência que é informe, que só reconheço na sensação dos passos que vou dando mesmo que os sinais que eles emitam sejam confusos e esquisitos.

não é vontade de descansar, é mesmo a percepção de que agora não posso mesmo descansar, tenho que pensar-pensar-pensar. quero ter o tónus de agir como é pertinente agir agora, há um trilho da passagem desta ventania que foi o festival que eu tenho que percorrer antes de deixar os fios da trama abrirem de novo para de novo começar.

tenho muita aversão a ideias, irrito-me muito com citações, com clonagens de modelos, com projectos sem prática, sem experimentação, sem entrar em corpo por dentro das questões…estou agora a exercitar mais e mais não julgar, ouvir e ouvir através de ouvir.

sinto-me de baixo de água, respirando por guelras que se criam a cada sopro mesmo quando penso que não vou mais poder respirar.

vou acompanhando a grécia, a forma como as pessoas vão criando redes de inter-suporte,sinto que aqui onde vivo essas redes ou assumem um aspecto formal que toda a gente reconhece,com um bom marketing, até talvez com um flashmobezito, ou então são continuamente esvaziadas de confiança…malditos códigos de relação social que não nos deixam ver a evidência do invisível. como é que se pode praticar a coerência se constantemente a confundimos com repetição de comportamentos? para se ser coerente tem que se aceitar a  complexidade, parece-me.

o joão do café do benformoso dizia hoje que também pensa nestas coisas, como tecer tramas de inter-suporte?ou vamos ficar à espera que se desmorone totalmente o mundo como o conhecemos?e o pior é que nem tudo é o que parece, diz ele.

falei à alice do banco do tempo que estão a tentar ajardinar com o cem. ela conhece bem o conceito,ouviu na rádio e acha muito bem que os mais velhos que estão em casa possam ajudar os outros. e eu perguntei-lhe se era preciso uma plataforma internacional chamada “banco do tempo” para confiarmos em partilhar os nossos saberes, os nossos fazeres.

é que a troca também é complexa. o valor de cada “coisa” trocada não se reduz à substituição de uma por outra.

vou experimentar o tal banco do tempo sim mas confesso que me horrorizam as ideias e horroriza-me a força que retiramos constantemente ao encontro em presença,à capacidade de discernir o que é ou não pertinente a cada momento.

vejo a flutuabilidade dos valores. e vejo ao mesmo tempo a profundeza da coerência.

sofia

One comment

  1. elisabete

    pois que isto de chamar a tudo banco e de tudo, como o nosso tempo de existência presente, ser convertido em horas e as horas se trocarem por outras horas objectificando e transformando tudo uma vez mais em mercadoria………………………dá que arrepiar.
    mas também podemos simplesmente começar.
    estou a tentar começar assim qq coisa também este ano na escola da minha filha. começar e fazer existir e depois nomear – se existir.

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