corpo sem abrigo abriga-se lendo

esta é uma carta para a helena e para quem mais queira perguntar-se sobre deformação:   estou em casa a preparar os cursos de verão. uma membrana suave vem aconchegar-me o corpo selvagem, duro e grosso que se foi fazendo sofia de tanto estar na rua.

estas temporadas de janeiro a julho, que de facto nunca acabam ou começam mas que neste período se intensificam imensamente, criam um corpo sem medidas, sem mediação, um corpo que é ele próprio o meio de tudo, ao mesmo tempo sem membrana, sem abrigo, sem casa, enquanto é todo ele membrana, todo ele relação, todo ele densidade de encontro.

temos experienciado a urgência e a pertinência do ir-e-vir, sabemos que se não há latejamento não pode haver corpo, mas este corpo que agora se aceita lendo, estudando em silêncio, passando as folhas, anotando palavras no caderno, sem falar, é uma espécie de hiato dessa vibração extrema que a deformação do pedras cria.

ontem tivemos encontro de filosofia na mercearia com a ana luisa janeira, contou-nos da sua viagem ao canadá e aos estados unidos, de como se propôs ouvir a transição liso-estriado do guattari e do deleuze. evidentemente viajei com ela, fiquei tonta com a experiência de estar na viajem dela e ao mesmo tempo ali na travessa do cotovelo, vi o que ela via pelos seus olhos e pelos meus em simultâneo.

vertigem.

vi a terra e a leitura da terra. vi o planeta e a ideia de planeta.

vertigem.

este corpo que agora vou sendo é disforme, vidente, corpo em carne viva, sem pele.

hoje talvez me reserve o luxo de ficar em casa em silêncio estudando.

como se as mãos calejadas e tortuosas me pedissem umas luvas finas, como se toda a matéria deste corpo-documento-escuta segredasse agora um desejo de suavidade, de brisa, de ternura. como o pato que vai no vértice da migração atravessando o vento e que agora recolhe para um outro lugar da viagem. rodeada de livros espalhados no chão de madeira experimento danças curtas, pequenos poemas de silêncio, delicados e subtis, poemas que sempre integram esse corpo brutal de viajante mas que agora pedem uma demora para se ouvirem.

sei que nunca poderia habitar nesta delicadeza de tremor fino e subtil, sei que  me crio na tempestade exuberante do desconhecido, sem proteção, sem película, mas também sei que a demora-hiato neste corpo-fantasma que lê, escreve, dança e não fala é fundamental no caminho que percorro e um bálsamo nesta viagem-vida.

sofia

One comment

  1. elisabete

    esta temporada de janeiro-junho que este ano visitei pela primeira vez abriu umas brechas na carapaça do meu corpo que se esconde em tantas tarefas e tantas preocupações e tantas insignificâncias brutalmente constrangedoras. quero deixar que das brechas nasçam membranas mais moles e mais dotadas de capacidade de relação e despejem a carapaça que me faz esquecer de sentir vontade.
    pedras e rotas e ruas e conversas e corpos aqui e ali e nas escolas também e nos livros e nos silêncios do estudo.
    mais encontros precisam-se.
    até já.

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