escrita com sabor a pedras

Uma coisa que queria muito perceber neste festival pedras era realmente como chegaria aqui, neste momento, depois dos dias do festival terem passado por mim e eu por eles… à medida que os dias do festival se aproximavam eu dizia para mim mesma e para algumas pessoas que me ouviam que tinha a sensação de estar na praia, com a água pela cintura, vendo aproximar-se uma onda que a cada momento avaliava a grandeza e a cada momento me fazia decidir entre saltar ou mergulhar, sabendo também de antemão que teria de mergulhar, que sentiria a água encharcando o meu cabelo e a minha pele… mas não queria nem antecipar o mergulho nem dá-lo quando a onda já está demasiado curvada sobre a minha cabeça… queria sentir-me alagar atravessando e sendo a travessada pela água deformado-a a ela e ela a mim. Queria muito saber qual a sensação no corpo de ter atravessado o mergulho. E aqui estou eu ainda encharcada, com as cordas ressoando da vibração conjunta, o corpo muito acordado… ouvi alguns feedbacks sobre o acabar… o acabar deste momento, as despedidas que se começam a fazer, o depois do festival… pois é precisamente nesta sensação que tenho conversado tanto comigo mesma… se  ela não pode continuar, esta vibração acesa do ser que foi densificada pela concentração das intensidades destes dias… se ela não pode ser densificada sempre… se esta sensação que guardo em mim agora neste momento, que não é de “boa! sou fantástica, ou somos fantásticos!” nem de “bolas! não correu como era esperado”… é outra coisa, é de outro universo, é uma sensação inexplicável de trabalho que se realiza, não tem certo nem errado, não tem sucesso ou fracasso, superar as expectativas ou estar abaixo delas… muitas vezes tenho pensado como os elogios não me realizam, ou por outra, fazem-me uma espécie de alegria devoradora que como um foguete logo se dissipa, para me deixar com a mesma sensação que estava antes… mas isto… a cumplicidade dos corpos vividos lado a lado, pulsando juntos… esta sensação perdura muitos dias, acho até que é impossível que a sua vibração se perca algum dia depois de ter feito ressoar as partículas de mim… parece uma memória celular que é reactivada e de cada vez que o faz mais evidente se torna a sensação que ela não desaparece de mim, apenas fica falando baixinho como eu canto em casa baixinho para não chatear os vizinhos… mas não se cala… cada vez é mais evidente que o silêncio não é ausência de fala, cada vez é mais evidente que o corpo não é indefinição de conceitos, cada vez é mais evidente que nem tudo a que se dá o mesmo nome é a mesma coisa, e que às vezes coisa diferentes vêm de um mesmo lugar… é essa para mim a afinação constante do festival… não desistirmos a meio caminho dando-nos satisfeitos por uma coerência de conceitos que não foi atravessada, irmos mais longe até e ver nascer o conceito com a prática de fazer o corpo passar por dentro de si próprio e assistir à transformação alquímica de nada em alguma coisa. É assim que nasce o festival, é assim que se faz a onda, uma massa de água que vai crescendo e alagando, que tem selvajaria suficiente para nos deitar abaixo mas que também tem a doçura de se deixar atravessar passo a passo com a densidade do corpo que atravessa e faz vibrar as membranas de todo o espaço nesse atravessar. Os corpos criam ondas de ressonância… tudo o que existe cria ondas de ressonância e viver no constante atravessamento de ressonâncias, ouvindo a sua constante mistura que se cria a cada atravessar, não querendo isolar nenhuma delas mas vendo e permitir-se continuar a ver a reconfiguração incessante dessas ondas dá uma inabalável sensação de estar a fazer algo bem… um bem que não precisa do aval do outro, de que o outro me salve da minha sensação de não fazer cá falta nenhuma no mundo dizendo-me “o que tu fazes é muito bom! parabéns!, quero ser como tu”… é de outro universo. Tudo o que existe cria ondas de ressonância, e o pedras existe e ressoa nos corpos que o atravessaram e se deixaram atravessar por ele. Não é um festival para vir ver, é um festival em que qualquer outro sou eu também, não tem lado de lá nem lado de cá e quando percebemos a força que tem estarmos todos do mesmo lado (pois que não tem outro) também nos maravilhamos com a evidência que não há nada para ver mas tudo pode ser visto… e os olhos são alagados por paisagens que nunca iriam encontrar na sua busca ansiosa por imagens, e os ouvidos são inundados de sons que nunca teriam distinguido na sua ansiedade de atribuir sentido ao que ouvem, e os corpos são tocados por vibrações que nunca teriam coragem de atravessar no caminho de isolamento que traçam na busca desesperada do reconhecimento do outro. Queria estar no no festival pedras para ter esta sensação no corpo agora… para poder revisitar o passado, actualizá-lo no meu corpo em cada gesto, e mais uma vez dizer-me a mim própria que esta vibração não desaparece… apenas canta mais baixinho sempre à espera de se fazer ouvir lado a lado com outras existências.

Não sei se isto é arte, se isto é vida… parece-me profundamente as duas coisas e nenhuma delas dependendo de como chego até essas palavras. Mas também, há algum tempo que deixei de empregar palavras… elas são livres e não querem ser minhas empregadas nem eu sua patroa… as palavras que aqui estão são as que se aproximaram sem medo, que se sentiram afim com a densidade deste texto. Por isso arte e vida devem ser as que querem dizer isso mesmo na densidade deste texto. Vêm do mesmo lugar, ou são a mesma coisa ou não são essa coisa, não adianta distingui-las como eu do meu nome ou a parte da frente da minha mão das suas costas. Porque eu existo e a minha mão também e este texto também e o pedras também… Não acredito em conceitos que não podem ser atravessados… não acredito em corpos que não vibram, não acredito em vida que não é criação. Não acredito em palavras empregues. Acredito no que se aproxima por afinidade sem se sentir obrigado a ter de explicar porquê… acredito na completude de um momento que é muito mais do que poderia nomear que está dentro dele pois é sempre na coisa que escapa e que ainda assim considero que encontro a sua redondeza, a sua pertinência enquanto coisa existente, vibração.

A minha descoberta este ano foi de proximidade.

margarida

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: