silêncio—ou aprender a largar

depois da festa no café do joão fiquei com a sensação que o festival já tinha terminado. ou que eu precisava aprender a largar esta janela do pedras 13.

senti que não podia deixar-me entrar no”querer mostrar” a beleza de estarmos mesmo a acontecer enquanto o acontecimento acontecia.

o perigo que é querer mostrar o que fazemos e o injusto que é calar a vontade de  partilhar estas descobertas permanentes de criação de possibilidades em terrenos impossíveis.  a dificuldade que é balançar-equilibrar entre criar-saborear-comunicar esta exuberância que é o pedras, praticar o chegar e deixar chegar, viver o encontro (o tal que implica a deslocação de todas as partículas envolvidas), e largar…como num abraço em que as barrigas se fundem os braços apertam-se enleados e de novo se abrem largando—-alargando o espaço. criar e tecer confiança, não fingir que não vejo o corpo deformado pelo abraço, ouvir a cada momento as inscrições presentes em cada fibra…

ai

que difícil

no jardim da estrela devem ter festa que a música chega-me pela janela…são 8 da noite e ainda não falei….estou muda

o dia de ontem aconteceu e continua a acontecer nesse apuramento constante entre apertar e largar, a susana não terminou a sua dança  no largo, deixou-a estranhamente suspensa sem saber como e sem saber porquê, intuindo que o que havia para resolver tem um tempo próprio, o tal tempo das cenouras crescerem por debaixo da terra—o lançamento do livro foi uma ternura e foi triste largar a isabelinha e a taberna—o programa de rádio ao vivo tropeçou-se todo, rebentando por entre conversas ao vivo e excertos já gravados como sempre fizemos mas ontem com uma sensação diferente:de que não poderia nunca dizer o que estava a sentir, que cada palavra não era aquela, que o tempo não podia estar a devorar assim as rugas de cada fala, de cada gargalhada, de cada suspiro…foi o primeiro programa em que a voz da piedade não entrou, ela espera-nos em sua casa já amanhã, quando o fole da janela pedras começar a largar a tensão….são outros tempos,os que não devoram—-e até acho que atravessei nesses outros tempos todo o festival até ontem, em que só por pequeninas frestas pude entrever um tempo sem fim, como quando tive a sorte (o corpo é mesmo mágico) de me demorar sentindo as lágrimas da alda da travessa do cotovelo puxando-me as pernas para trás enquanto atravessava a praça do município rumo à paula das lãs para estar com a documentação, a força de recuar enquanto avançava, a urgência de não me precipitar, de não me apressar, de aguentar a força da onda desde o interior da onda—-ou quando me despeguei da carrinha do felismino insistindo na confiança de que a documentação já não ía poder continuar a viagem sem se transformar numa “prova” da qualidade do trabalho—–ou quando trouxe o pau do estendal da luz e estive sózinha ao mesmo tempo na praça do comércio com as travessias e no largo de são domingos, ecoando o que tinha sido, o que estava a ser e o que seria.

durante uma hora estive escutando, agradecendo à prática de escutar a possibilidade de escutar. silêncio. não oiço as minhas palavras, escrevo na ponta dos dedos com a língua aninhada no céu da boca, está muito calor.

o andré está no alentejo a ajudar o pai a pintar a casa, a renata já voltou para o algarve, a gata muni adormeceu, o vento faz dançar a fronha da almofada cor de rosa.

vi agora a lídia da mecearia a dançar no largo, vi o luis  de camisa amarela, o cláudio da moto serra sentado no chão, a macieza das canções já com o bailão terminado, as cervejas, os cigarros, os disparates, o pedro agarrado à mala das fanzines completamente perdido, o mesmo pedro a sorrir abraçado a mim, a força da margarida, a pele brilhante da joana, o abraço da cristina, a loucura do augusto, a implicação do lyncoln, os olhos da adriana, a juventude do gonçalo, a perlexidade da anais, a delicadeza da valentina

vejo a minha mãe que não vejo desde segunda deitada na cama imóvel como um lago sem ondas, o meu pai tão corajoso e lindo mergulhado nas fotos e nas cartas, emanando disponibilidade…

vejo o silêncio

finalmente choro, já se vão lavando os olhos de tanta poeira

finalmente chovo

sofia

 

One comment

  1. africa

    eu chovo contigo, desde barcelona, ouvindo as vibrações de tudo aquilo que contas, e do que não se conta também, vibrando de barriga a barriga,
    e te mando uma cançao portuguesa que ando a ouvir e que me faz sentir uma saudade muito cálida,
    e muita saudade
    editada com um video dessos que são feios, pero que ao mesmo tempo, curto
    muito muito amor pessoas
    africa.

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