documentação- tenho aprendido tanto

a carrinha do felismino a transportar documentação—-o gonçalo a fazer manobras para estacionar entre as pessoas estendidas em cartões fazendo da rua do benformoso uma paisagem de campo, as malas abertas com as fotos, grandes e pequenas, o som da guitarra e da flauta, as fanzines em molhinhos, as pranchas originais coloridas, as cartas entre-cidades, os hotéis em cartão, os textos da revoada abanando num cordel com molas, os autocolantes público-alvo a espreitar trocistas, os ímans com imagens no capot da carrinha, o cláudio da moto-serra no banco da frente a ouvir as entrevistas e a querer comprar cds—os tempos que co-existem entre demorar-se a ler sentado na cadeira pequena, ouvir música, conversar, enfiar as mãos nos documentos,mexer-mexer-mexer, por um monóculo com as micro-fotos em cada olho e deixar aparecer uma composição única que só aquela combinação permite—-o pedro sentado a sorrir já sem se conseguir mexer rodeado de documentos lindos, documentos-tempo—-eu a ouvir a respiração ondulada desses tempos que ressoam em mim num lugar próximo ao da contemplação das mantas coloridas a cobrir-nos por entre as crianças na primeira noite desta viagem, á medida que o dia queria já espreitar, em silêncio, pingado de esvoaçamentos em mancha das andorinhas viajantes.

é um ar-uma cor-um cheiro-uma textura-um brilho-uma melodia-um sabor-uma macieza—-que me diz: isto é documentação, é esta a vibração da criação, é esta a ressonância do ecoador feita documento.

hoje para o bailão a carrinha já não vai estar connosco,vai descansar no beco da amendoeira depois de passear ainda, vaidosa, pela cruz dos poiais no lançamento do livro, pela rua de são paulo para a gravação do programa de rádio e talvez ainda estacione entre as lãs e o café aqui na rua dos fanqueiros—mas já não vai ao baile—-muitas das pessoas que dizem ter interesse em documentação já não vão ter a honra de estar com este trabalho precioso,mas ele existe, cheio de força, de clareza, de criação! a carrinha não vai ao baile por amor—-cada umaum que tem estado com o acontecer deste pedras13 com tanta implicação na complexa prática de ser-acontecimento, tem essa experiência de ouvir os tempos de vida de cada organismo e o quanto cada ser (como o ser-carrinha-documentação) se move na autonomia-suporte.

não queremos MOSTRAR a documentação, é algo bem distante dessa urgência de ser reconhecido na inscrição de algo, é a partilha de uma experiência que é ela própria potência, arte em directo.

a carrinha está agora a sair para a última voltinha, com os pneus já na última e as fotos a começar a enrolar-se nos cantos de tanta brincadeira—-tenho aprendido tanto com ser-nómada sendo ficante——entre caminhar indo e  caminhar ficando a documentação está a abrir a magia de estar com sem aprisionar, sem fixar o que foi. ouvir o presente na caminhada que foi e será….é outro corpo que atravessa-acontecendo enquanto escuta-comunica esse acontecer.

é outro corpo que enquanta. enquantar

sofia

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