o dia de sexta feira 29, à beirinha do festival

esta rota começa do lado da mouraria e vem escorrendo até são bento para nos deixar mais perto das janelas verdes onde gravamos os programas de rádio. esticando o elástico de lá para cá, é só depois largar e  ser projectado de volta à rua dos fanqueiros para o microbaile.

é manhã cedo e os pássaros estão muito atrevidos nos seus vôos chilreados,o vizinho está lá em baixo a lavar o carro com música de ópera no rádio e o cãozito da velhota do fundo também aproveita para os seus vocalizos matinais.

como sempre tenho o ontem em hoje,dormi com uma almofada muito grande ao fundo do colchão para poder trepar as pernas e deixar deslizar o cansaço.

a rota de ontem-hoje traz uma prequela tipo star wars que começa no fim e só depois vem trazer os episódios do princípio. é que estando às 10 no largo da achada já não chegamos a tempo de encontrar as pessoas do mercado da ribeira que se levantam às 3 e meia da manhã e abrem a venda bem cedinho para fechar pela hora do almoço.

assim encontro-me com a margarida no mercado antes do princípio. trago as fanzines assinadas pelo pedro porque para a beta dos ovos ou a catarina do peixe é importante ser ele que lhas traz. está tudo pronto para o baile de quinta feira próxima.

a jesus está muito pensativa, com as mãos nos bolsos da bata azul cheia de escamas e os olhos perdidos no ar, desce à terra para continuar as descamar o peixe miúdo e entra em brincadeira comigo sobre o que há-de vestir para a dança…mas vai entrecortando com a miséria que isto está, a miséria que isto está…

a rosa dos tremoços e das azeitonas, que hoje acabaram por ficar na isabelinha dos poiais de são bento depois de irem largando montinhos pelo caminho, fez 77 anos e diz que lá em casa ainda a acham uma rapariguinha e que ainda na véspera se lançou a um estalo no sobrinho que tinha ralhado com o filho de 25 anos por não ter dormido em casa….como se se tivesse esquecido como tinha feito o filho…

a fátima anda mais calada, é uma mulher brilhante, forte e festarenga, com uma trança grossa pelas costas abaixo, cara de miúda. transpira sabedoria e simplicidade,às vezes dá-me a sensação que ela é um anjo disfarçada de humana que anda por aqui a ver como nós vamos vivendo as nossas vidas.

vou a caminho da clementina das clementinas e da bela dos brincos de princesa e vejo a alice dos alhos lá ao fundo a chinelar com uns crocs 3 números acima que lhe amassajam os pés, vai gesticulando e dizendo palavrões,muito pequenina e rápida,língua afiada e faca na mão. cruzo o senhor virgílio que empurra os carros todo curvado e levo dois beijinhos das barbas molhadas não sei de quê(nem quero saber…)

a mãe da bela diz que a neta anda muito largada e que se tem que puxar as rédeas agora na adolescência, que se tem que arrecuar com eles se não perdem-se, que no outro dia a neta sofia que toca oboé lá se pôs a passar a ferro um bocadinho mas com a televisão a um palmo do nariz, que é um gasto de luz que não se pode, e a mãe que trabalha tanto e a miúda que não faz nada…os olhos verdes da bela acenam enquanto me pesa os pêssegos de roer. também tenho um adolescente em casa…é altura de já saber tudo…a minha grande amiga piedade diz para eu não lhe puxar os freios agora, para lhe dar espaço…..largar sem abandonar, abraçar sem apertar, acompanhar sem julgar, não fingir que não vejo, ser dura e ser líquida, é muito amor acompanhar o crescer!

passa o irmão da jesus que não tem os pirolitos todos e que hoje anda a carregar caixas com um  boneco galáctico que encontrou por aí.

quando se entra pelo lado norte o mercado está mesmo em desequilíbrio,toda a ala da direita está em desertificação.

os legumes frescos são um bálsamo para os olhos, as frutas pequenas,os limões tortos…esses vegetais com formas diversas que sugerem ainda não terem sido submetidos à normalização cruel que nos afasta do que comemos…ainda na última conversa sobre comida se falava da nossa intolerância para as diferentes texturas e os diferentes sabores que cada fruta pode ter…preferimos garantir que sabe sempre a E qualquer coisa…mmmmmmmmm

bom, a rota começa na achada mas já foi começando no mercado.

montamos na mota alice e saltamos para a achada ao encontro dos outros roteiros.

no largo já está um bando conversando, eu perco-me cá em baixo de volta do gato preto e das flores da vizinha maria da luz que é de rodão e que tem o tal banquinho igual ao da dona maria da achada para se assomar à janela.

vai fazer muito calor mas ainda apanho uma brisa que me transporta pela ruela até lá acima, subo as escadinhas que vão dar ao castelo e venho com o lyncoln conversar com a dona maria. mas a dona maria robusta e mandona que é amiga da paula que rebolava pelas escadas, não é a maria do banquinho que conversa com a televisão e deixa um molhe de deditos aparecer quando espreita a rua frente à casa da achada.

por um bocadinho do dia tive quem tomasse conta de mim,e pegue lá um lenço, e não beba pelo gargalo, e não mexa nos olhos com os dedos…e a casa dela que mal dá para nos virarmos lá dentro parece um museu da mulher portuguesa asseada e prendada,cheia de deliciosos panos da loiça em florinhas cor de rosa, aproveitados de uma camisa de noite ou de um lençol, impecavelmente dobrados nas gavetas…dê cá um abraço minha filha, gosto muito de vocês, vou ali jantar com vocês na terça feira sim, e se precisarem de alguma coisa é só dizer. o lyncoln deixou um convite para a revoada e já saiu para regar as plantas do 9-9A eu ainda me demoro de volta de uma escada miniatura, tapada por uma cortina com folhos, que sobe para as águas furtadas….tanto segredo….está a chegar o irmão dela e saio eu que ele também é robusto e já é robustez a mais para uma casa tão pequenina.

sigo conversando com a luz pelo largo da rosa, a aurora está a chegar ao centro de dia, repousando à sombra com um vestido meio lilás feito pela filha, que hoje vão fazer a marcha lá para a santa casa. Ajunta-se ali muita gente a chegar. a rosa, que diz que mais nenhum médico lhe deita a mão, o senhor alexandre de sapatos ténis que abre um centímetro de calçada em cada passinho….dizem que vão ao lanchinho lá no beco da amendoeira na quinta feira às 5. depois se vão ou não já a coisa muda de figura que esta gente velhota vive cada micro segundo com demora, no coração estarão sempre!

beco da amendoeira, espaço escondido onde se agrupa o tráfico de droga à descarada mas onde a gentrificação ainda não chegou…parece um oásis…mesmo com os vigias nas esquinas.

o senhor zé está contente de nos ver, lá enquadrado na sua janela baixinha, a amália acabou de sair para a junta de freguesia,anda agora num corropio com a neta e a nova casa do filho ricardo.

aqui parece uma aldeia, a vizinha helena já não sai muito de casa e a outra de cima deve ter caído porque está deitada à porta de casa cheia de nódoas negras,mas entretanto os bébés já são crianças velozes e as barrigas voltam a inchar para trazer mais um ao mundo. em cada casa a roupa vem-se secar à janela, as plantas e os piriquitos conversam preguiçosos e os bancos e mesas para as jantaradas esperam pela tardinha para se agruparem outra vez às voltas com o vinho caseiro do felismino.

sigo para o largo da severa a ver a piedade, o jorge da tipografia está muito bem disposto na sua bata azul.

ela está deitada e leva muito tempo só em abraços, e beijinhos, e massagens, antes de se atrever a sentar…saio às compras para ela com o pedro, alperces e cebolas no senhor joaquim, leite, caldos knorr e feijão no mercadito. vamos bondiando as amigas da peixaria que ainda estão muito silenciosas desde que morreu o marido dela, a querida arminda que se alumia quando lá estamos apertados na sua lojita de bordados, a nita que hoje canta sugar, oh hunny, hunny,hunny e quer um beijinho em vez de nos dar um soco e seguimos aos recados. o homem da placa de ferro na cabeça casado com a anã que ninguém sabe como tem paciência para o aturar está enfiado num buraco a esburacar. o escorrega da rua do capelão já está quase pronto.

voltamos à nossa casinha tão familiar para mais umas cerejas do fundão e duas mãocheiinhas de conversa e segue a rota. à noite, enquanto o microbaile for serenando lá na frente da igreja da madalena, nós os recadeiros havemos de cantar o va pensiere do verdi e o ó zé aperta o laço….cá coisas do tempo elástico que já foi e continua a ser.

a rua do benformoso traz conversas de namoro entre o joão e a alice, histórias de horror e lutas greco romanas com o cláudio da serra elétrica e a lojinha de chapéus e porta moedas que tem os preços mais curiosos da história: diz a luz, vê lá o que achas engraçado nesta montra, e eu perdida nuns folhos de um chapéu e já ela a dizer que não aguenta sem olhar para os tais preços. é que as coisas aqui custam 3 €04 —–11€73—–9€68——2€07

é o que se chama preços especiais!

lá para a frente já mais perto do intendente a dádá e a rosa da lavandaria não estão por aqui, está antes a luisa que me diz que a pele dela está mais linda que a minha brancura, e tem razão, muita gente estendida pelo chão, o gajo de olhos verdes que ajudou a pendurar as t-shirt coloridas de um prédio ao outro e o flávio que crava um cigarro e escreve no meu caderno que “a bondade não é otáriçe”

seguimos para o largo de são domingos onde a sara dança perto da oliveira que nos dá a única sombra desta hora.passa uma guineense vestida em panos laranja brilhante e a sara sai a correr atrás dela. queria ficar aqui mas preciso mesmo de estar mais tempo na loja das lãs da paula para ver como passaram a noite as casinhas que a ana fez, as “casas vazias praças cheias”, os textos nos rolos das lãs, as fotos nas molas….enfim, a documentação do pedras que vai já poisando nos lugares que a acolhem.

o café sem artes ecoa do outro lado a alegria que para aqui vai, o microbaile vai abrir esse trânsito entre estas duas casas tão simpáticas.

passamos ao policarpo das tesouras,outra casa com 200 anos, que está ultra actualizada e dinâmica na sua especificidade, e que há 2 meses recebeu uma carta de aviso de saída para mais um hotel! só aqui á vista uns dos outros são 5 hotéis!

passamos tão longe quanto possivel desta estupidez de pseudo horta na praça do comércio mas as obras da rua do ouro não nos deixam cortar a direito, lá vai um bando de crianças “felizes” todas vestidas de azul e boné cor de laranja, a visitar esta absurdice….se calhar é só aqui que vêm fardos de palha…

na travessa do cotovelo a mariana deixa respirar as palavras por entre as frutas e nós abrimos as fotos com os imans a ver o que elas acham de passar ali o festival. a rota começa a apertar.

vinha tão alargada e espaçosa,mas agora comprime-se por aqui,entre a mercearia,  a preparação da rádio na groovie records, a taberna da isabelinha e depois a largada para a gravação do programa de rádio. vejam lá que me esqueci de avisar a isabel das horas a que lá passávamos hoje, que pena…tenho mesmo que ter mais atenção quando a coisa comprime, de não passar por cima destes movimentos tão delicados!é que assim o costa já não nos viu, que tristeza.

deixámos lá no frigorífico uma foto connosco encostados à parede a fazer disparates, e assim também lá ficaram os tremoços e as azeitonas e vieram uns bolinhos que ela lá tinha para nós.

num salto estamos nas janelas verdes percorrendo as gravações que fomos fazendo, re-ouvindo pessoas e lugares. tal é animação que já chegamos ao baile mesmo em cima de estender as rosas de crochet. quando cheguei a casa já eram 10 e meia da noite, para jantar com calma,à luz das velas,com meu filho andré.

pronto, faz de conta que não é já noite avançada. conversa suave depois do chuveiro frio, os pés a latejar de tanta caminhada. mais cerejas do fundão.

andré põe o último episódio do star wars, adormeço quando a princesa leia está aprisionada aos pés da lesma gigante jabba the hut.

boa noite-bom dia-boa tarde

sofia

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