mensagem para deixar na porta do frigorífico e não esquecer

querido cem
estive na conversa no teatro maria matos com Tim Jackson • Prosperity and Sustainability in a Green Economy.
é serenante ouvir um economista que fala da complexidade de ser humano, que considera estilos de vida, que pensa que não é o crescimento ou o sacrifício que vão abrir a respiração deste mundo sufocante.
quando digo serenante não é que sinta que me tira o desassossego de continuar lutando, é que me acarinha a solidão acompanhada que percorro cada dia com quem está lado a lado criando o cem.
o cem que não é um território com dono ou um lugar de pertença mas uma rede de práticas que sustem o fazer-ser-estar e é sustida por esse mesmo fazer-ser-estar.
não que todas as pessoas que cruzam esta trama “lisa” tenham a maturidade e a visão de se apurarem no corpo-mundo. muitas passam bebendo da magia de acontecer e fazer acontecer e seguem as suas vidas com mais uns diplomas e sem se deixarem tocar, outras vêm de longe e cristalizam no julgamento, convencidas de que fariam aquilo que fazemos mas muito melhor, com envelopes muito mais definidos, com um reconhecimento do “outro” muito mais evidente…
seja o que for, mesmo por entre formas e estilos de vida que não se libertam das construções, reivindicações e defesas do ego, este acorde de pessoas vivas com que cada dia partilho o carinho de ler, escrever, dançar, discutir, ouvir, tem uma força vital avassaladora.
quando o tim fala de esperança-hope eu vejo essa pulsação das membranas do coração, da pele, das gargalhadas, da sala, da rua…mais uma vez não é uma esperança-hope em algo que está para acontecer e que prevejo já com forma e tudo, é antes uma esperança-hope que amplia a confiança do fazer-ser-estar no presente do passado, no presente do presente e no presente do futuro.
parece-me formidável essa confiança, esse olhar cego que se afina na especificidade de cada gesto, esse exercício de estar-com sem perder a solidão, a responsabilidade de ser-só mas ser-só com.
enquanto agradeço ao cem a elasticidade e generosidade que sempre tem tido na sua permanente transformação sei que não reivindico um ser-cem como não reivindico um ser-sofia. sei que a matriz extracelular, a atmosfera, o espaço entre espaços que o cem potencia é precioso, sei que outros organismos ou micro-sistemas também o fazem e é essa escuta inter-células,inter-corpos,inter-organismos, inter-microssistemas, inter-macrossistemas que surge agora como uma urgência no caminho que percorro. abrir os olhos-ouvidos e acompanhar as subtilezas que não aparecem nas linhas grossas dos protocolos, que não perdem 2 horas a assinar contratos inúteis, que não inventam mil e uma formas de ocupar o dia só para não ter que olhar nos olhos de quem caminha ao nosso lado, olhar sem querer perceber, respeitando a caminhada, deixando chegar a diversidades de cores, de brilhos, de velocidades de cada olho-ouvido.
nesta conversa de hoje apareceu o código de resposta-tipo “fight or flight”,luta ou foge….mas também há um “freeze or friendly”sempre a espreitar…congela ou faz-te amigo….seja qual seja o “f” que aceitamos como resposta-tipo é sempre uma relação de confronto, como se ser humano se reduzisse a esbarrar no peito do gajo que está à minha frente.
tiro-lhe as medidas, julgo, enquadro e ataco ou defendo…pois não me parece que haja muita poesia (criação) aqui.
obrigada microssistema-cem,obrigada a cada pessoa que existe em liberdade,obrigada ao espaço entre danças.
boa noite amigos
sofia

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