A Horta do Monte e os projectos paisagísticos

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Venho agora da Horta do Monte, onde a paisagem é de crueza e obviedade em demasia. O mais evidente está a decorrer agora mesmo, uma “destruição pacífica”, como dizia uma fiscal da Câmara de Lisboa, de um espaço ocupado, de uma iniciativa de pessoas que se juntam sem uma ordem superior que as permita estarem onde estão a fazer o que fazem.

Haviam muitos com coletes escrito arqueologia nas costas a acompanhar as máquinas, que devastavam muitos metros em segundos, metros de área cultivada por tempos que não se contam no mesmo relógio que quer cumprir a tal obra para o urbanismo e paisagismo da cidade, e que por isso acaba com tudo sem mais conversas… E a polícia?! Em muito maior número do que as pessoas que lá estavam sem coletes nem nada a olhar afastados as plantas que plantaram. E já ninguém sem coletes pode entrar, e as máquinas derrubam flores, formigueiros, cercados, hortaliças e árvores…

E escrevo agora a tentar não ficar somente nessa cena horrenda de tal “destruição pacífica”, tentando não me desgastar ao meio dessas armações maquiavélicas a desviar de muitos empecilhos que me querem desfocar da minha vontade de estar por dentro dessas barbáries urbanas pois não quero ser amputado dessa situação, em que querem que gaste muita da minha energia disponível a estar e a acompanhar o que se passa criando obstáculos como policiais sem identificação e com muita má onda, vários cartazes distribuídos de um dia para o outro, espalhados pelas lojas e vizinhanças da Graça, incitando uma petição para a retirada da horta, sendo que a desocupação já estava prevista…
Que força é essa que tenta me por de lado? Que me quer fazer desacreditar que essas políticas afectam a mim? Que posso não sucumbir e pensar que se calhar é melhor não me envolver pois sou só quem sou?

Penso nisso vendo as flores todas sufocadas por de baixo a terra sendo revirada, as abelhas desesperadas a sobrevoarem aquele chão, tentando não abandonar aquilo que elas conheceram tão bem só por que alguém que julga ser muito maior e mais poderoso resolveu mudar a ordem!

Que tipo de política é essa? Que a abre feridas, destroem pacificamente? Quem arma essa cena toda, com tanta perícia, cheia de pessoas a tentar convencer ao mundo o que é o correcto e o que é o errado, tentando dividir com a maior visibilidade os lugares das coisas, “isso é assim, vocês estão errados e também não é legal, podem ir embora para casa…”. Qual é a importância de passar por cima das plantações? Qual é a necessidade não deixar as coisas coexistirem? Que está a cumprir esse tal projecto?

Manobras da obviedade mais convencionada.

Fui à horta não na ilusão que eu poderia dialogar com tanta falta de respeito e estupidez, dessas acções em prol do desenvolvimento de projectos urbanos que não ouvem a cidade, as pessoas, as árvores… fui à horta pois sei que de alguma forma posso estar por ali e não deixar ser enganado por cenas armadas… fui à horta pois não quero afastar-me do que acontece num lugar que passo todos os dias a caminho de casa… fui à horta confiando que as coisas não precisam acontecer como estão a acontecer, e que as pessoas podem comunicar-se, podem gerar uma rede de interesses e não sucumbir ao que nos quer comprimir… fui à horta para não deixar que a força que criou essa horta seja interrompida como a querem interromper.

Lyncoln (as fotos eu roubei do Paulo Raposo, desculpa lá e obrigado Paulo)

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