histórias da penúltima rota antes do festival e um cheirinho do microbaile africano

a saída para rotar na sexta feira passada já vinha apertada de uma manhã repleta    de detalhes que a comunicação do pedas13 exige. eram 9 e 45 e larguei a correr pela calçada da estrela abaixo com  um vestido colorido, meias brilhantes, as merendas para o dia na rua,o caderno, a caneta e a cadeira antónia. ainda tinha pensado deixar uma muda de roupa para a dança frente à rosa da lavandaria que faz 50 anos e para o baile da noite mas deu-me uma ventania e saí de cor de rosa logo de manhã.

como não podia deixar de ser o estado de rota abriu o corpo a encontros que não se ficam pelos bomdiamentos e quando finalmente entrei no beco francisco andré já a rota estava quase a sair para o mercado. mas os poucos minutos que me pude ajuntar neste recanto escondido da rua da boavista foram serenos e largos e deram uma simpática afinação ao dia que aí se vinha abrindo.

já se via na roupagem das outras viajantes que o microbaile africano espreitava lá para o fim da tarde. vermelhos, laranjas, azuis fortes, verdes intensos foram pintalgando a rua cinzenta que nos leva ao mercado da ribeira.

a alice dos alhos estava particularmente apurada nos palavrões e histórias de sexo, mesmo ao lado da calmaria da rosa que sempre oferece os tremoços e as azeitonas que já vão também poisando pela rota fora ligando estes lados de cá lá com o intendente e a mouraria. uma mão cheiinha de azeitonas para a cidália da rua cor de rosa ou para acompanhar os copos de vinho ali na taberna da cruz dos poiais, uns tremoços na morabeza em forma de mercearia onde à tardinha ía haver festa, umas azeitonas aqui em casa da piedade no largo da severa ou um pires misto para a dádá no intendente.

esta rota deteve-se ali na rua garrett às voltas com a procura de saliências pela loja das flores para a elizabete poder pendurar as microfotos em monóculos que vão fazer companhia às plantas uns dias do festival.

o serpenteamento foi tecendo pela rua douradores,voltou à praça do comércio, esse deserto exposto ao vento e ao sol, deu uma laçada de novo à rua dos fanqueiros onde a paula das lãs tinha casa cheia e nos sentámos a piknikar o almoço enquanto a regina do café da frente  se divertia a tirar fotos e a dizer disparates.

a passar ali nos bancos da rua da mouraria a vanessa e a mãe estavam aninhadas na beirinha do muro do centro comercial, as duas muito pequeninas com as pernas arrebitadas no ar enquanto a anita dormia ao sol com um novo-velho casaco roupão cor-de-rosa quase tão gritante como o meu vestido enquanto ela, caso raro, estava em  silêncio.

parece que neste hoje as aventuras da crise não passaram por aqui, as vidas atribuladas dos sem abrigo e dos desempregados estão neste-aquele momento em poisio ressoando apenas na calmaria dos gatos a dormir a sesta.

demoramos um pouco na arminha da rua do capelão e nas suas visões animadas dos velhotes a abraçarem-se a nós aproveitando sempre que podem a oportunidade de apertar carne viçosa e beijar bochechas macias. presenças selvagens que não separam as pessoas em quem deve  ou não estender a mão para um passo de dança. lá mais ao fim do dia, quando o microbaile abriu roda no largo de são paulo entre a alegria luminosa das escadinhas da bica e a festa vibrante na travessa do cotovelo, quem se ajuntou à dança foram os sem abrigo que poisaram os seus copos e garrafas na bordinha do passeio para rodopiar suave-suave-suave.

ainda a caminhada  plantou jardim no largo da severa à sombrados acenos da piedade à janela, ouvindo os novos costuramentos que a nossa querida amália anda a inventar, enquanto o jorge da tipografia se ria da companhia e o outro atacava um colchão de molas com uma faca para salvar a armação e se ver livre dos percevejos que colonizaram  o tecido de revestimento e foi beber café ao lado do chafariz, com a alice de cabelo escorrido, pronta para uma viagem já de fim de semana.

a rota terminou em beleza cantando e dançando com a rosa frente à lavandaria.a dádá e o zé luis do bar sarriá tinham-se zangado outra vez e não se juntaram à festa masas vizinhas indianas lá do quarto andar não paravam de agradecer em várias línguas, a mãe da rosa choramingava de comoção e os habitantes do intendente,que tinham ajudado a esticar um curioso estendal-enfeite em ziguezague entre os dois lados da ruela cheio de tshirts coloridas e outras roupas de vários tamanhos, juntaram-se à celebração dos 50 anos da nossa rosinha.

ainda deixámos convite para o baile que começava no alto das escadinhas da bica às 7 e meia e mal sabíamos nós  que a lídia da mercearia tinha convidado músicos de cabo verde para se ajuntar aos angolanos que tínhamos convidado a tocar.

boooooooom—-grande pororoca de música! sangria em vez da costumeira ginjinha, muita anca a abanar e o espanto de quem sempre se depara com esta festa nómada sem querer acreditar que lhe aconteceu a magia de estar ali naquela hora enquanto estendíamos as rosas de crochet vermelho por entre recantos improváveis…

sofia

a foto de entrada é da ana bruno

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