Paisagem alargada

Esse sábado a revoada trouxe algo de concordâncias, ajustamentos, coincidências.

Mas cada uma dessas boas novas de sábado chegava de um lado diferente. Dos lados que vinham o Manoj e o Arogia, ao meio das palavras nepalesas, dos lados por onde veio a Luz e cada palavra curiosa lançada ao vento, da Vera e da Rita e as dezenas de latas de ananás para replantarmos os nossos crescidos brotos, da Sónia, Mário, Alex, Suzana, Pedro, Adriana, Luís, a Ana e a amiga, o Ribão. São coisas de enxame, de cada um sair de onde está em direcção à um mesmo encontro, que não é igual aqueles se movem-se à ele, mas que abre-se em vários, sendo que os vários coincidem em ser aqueles que moveram-se numa concordância de estarem lado a lado sem mais para que. São questões geradas do ajuntar-se por um bocado, sentir a ventania trazida por quem estiver comigo, sem perder a coragem e o descaramento de largar o encontro em outras direcções.

É uma revoada e isso está ajustado.

Cada um vem de um lado, traz consigo uma linha. E esses fios quando encontram-se não recorrem ao nivelamento da passagem por um ponto que regula, coordena e assenta um padrão de seguimento dos trilhos. O encontro se dá na continuidade da tessitura de cada um.

E a medida que aproximo-me dessa membrana, dessa envolvência, dessa ousadia de encontrar-se não sabendo quem virá, nem o que faremos ali, pressinto a urgência de garantir na minha entrada, na entrada da minha linha, no traço que cada um vem desenhando, a criação de laços, de ramos, de canais que estejam receptivos à partilha, ao movimento de receber e enviar a vibração desse ajuntamento. E cada um vem de onde vem, traz o que traz, lança seus riscos, por entre os riscos tão outros dos que vão ao lado nessa mesma onda. Esse é o trabalho, ou aquilo que reconheço como lugar comum de mexer-se, praticar um encontro que não uniformiza as linhas que se cruzam, adensar diferentes interesses sem prender-se a pontos onde a diversidade é sintetizada e resumida em actividades colectivas. Trabalhamos a continuidade das linhas, cada uma, não só para frente ou para trás, mas para dentro, para fora, em volume, juntas, diferentes e partilháveis.

A revoada não tem a preocupação em ser mais que isso. Nem menos. Voar juntos não é somente deslocamento de um sítio a outro. Sem contar que nesses voos os meus olhos vêem uma paisagem que os teus não vêem, e assim damos suporte ao ver juntos sem ver a mesma coisa. Quantas visões têm uma paisagem? Por que paisagem viajas tu?

 

Lyncoln

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