o brilho dos olhos do sr. joaquim

Que alegria foi dar o cartaz a avisar o festival ao sr. joaquim da pequena mercearia da rua joão do outeiro. Ficou tão contente, com os olhos castanhos e a cã brilhante a sorrir de alegria a olhar os recortes de laranjas e beringelas sobre o papel. Com uma foto dele no meio dos vegetais, naquele papel vermelho, bordoado, que ele mesmo tinha escolhido, confiante nalgum lugar, que não o ofenderíamos, nem o invadiríamos em algum aspecto da vida, usando-o como um público-alvo. Estar com ele como pessoa, como o senhor joaquim que vende hortaliças, e que nos recebe com os pós de maio nas mãos, sorrindo num bom dia jovial, vendendo as batatas, e as laranjas para a nossa querida piedade do largo da severa. Essa pessoa que pergunta o que podia trocar, pelo papelinho tão bem arranjado, pendurado junto das prateleiras das beringelas e alho-francês. Disse-lhe que nada, apenas que estivesse atento entre os dias 2 a 6 de julho e que avisa-se os vizinhos desse acontecimento, leve e forte que é o festival pedras’13, que já está a ser.

A alegria de dar estes papéis coloridos, redondos, cheios de recortes especiais, para esta e aquela pessoa, com plumas, e bordados, especiarias e flores, foi desde da isabelinha da cruz dos poiais, passou pelo mercado da ribeira, travessa do cotovelo, paços do concelho, rua dos fanqueiros, martim moniz, mouraria, à dádá da rua do benformoso. Desta alegria, tão contagiante de receber um sorriso e uma vontade de estarmos juntos, chega-me uma onda de intensidade viva que me faz entrar pela loja da lúcia na rua do arco do marquês do alegrete e… é só para te dizer que estou muito contente!!!… ela ri, levanta os braços com a vizinha sua amiga… saio e continuo. Lá vou para o microbaile, que desta vez entra na tasca da isabelinha descendo à rua da boavista elevando-se no becozinho amarelo com o nome da rua.

E neste fazer acontecer, vou-me apercebendo que por entre os gritos de ruína no ar, da força de repressão que se desmascara, impondo-se em São Paulo, Grécia, Turquia, e mesmo aqui em Lisboa, a vida, demónia de milénios, bolor das paredes, rebentação das ondas nas rochas, água transbordante entre os dedos, desvenda-se nos buracos do 9-9A, nas mãos da criançada que rapam a terra, atrás das janelas velhas do largo da severa; nos sonhos das pessoas que já não têm casa, neste olhar querido do senhor joaquim na sua pequena mercearia na rua joão do outeiro, que recebe um papelinho de mim e me faz confiar que tenho de trabalhar a vida toda, para continuar a ver por entre as pedras os encontros pequeninos e a força que deles nasce.

pedro

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