Carta de São Paulo 2- Ética para meu filho

Soube que nos jornais de Portugal os comentaristas políticos fizeram uma análise do valor que corresponderia em euro o aumento da tarifa de ônibus que a cidade de São Paulo sofreu a mais ou menos 3 semanas atrás. Perguntavam-se porque tanta manifestação nas ruas já que o aumento é apenas de 20 centavos, ou mais ou menos 7 cents…. Quanta ignorância, como se a manifestação se tratasse apenas disso!!!

Abro o meu email e recebo esta carta linda, um relato de um querido amigo. Partilho na intenção de que com ela se possa sentir – mesmo que daí – um pouco a atmosfera das tensões das terras de cá.(mariana marcassa)

Ética para meu filho

Sim, estávamos lá, estivemos por lá.

Manifestamos nosso direito democrático de ir e vir, como canta nossa Constituição.

Mantivemos nosso instinto nômade de flanar, ainda que entre prédios já sem vitrines, ainda que por calçadas com gente morando na rua ao invés de flores decorando o passeio.

Fiz questão que passássemos por lá. Aproveitei um compromisso da patroa e saí como quem não quer nada com o pequeno. Coloquei na mochila algumas bananas, coloquei um gorro amarelo  que não era dos mais elegantes, algumas fraldas, talco, o de praxe.

Fomos de Metrô.

Igor adora o Metrô. Ele mal pode ver um trem chegando que diz, entusiasmado: “trô, trô, trô!” e aponta com o dedinho. Fui direto no tal vagão preferencial, pela primeira vez entrava naquele mundo até então desconhecido, cheio de senhores e senhoras idosos, alguns jovialmente idosos por sinal, e com algumas mulheres grávidas. Não havia nenhum bebê àquela hora. Passavam das cinco, pra completar era dia de grave greve nos transportes ferroviários, estar àquela altura do campeonato com um bebê dentro do metrô indo em sentido leste (embarcamos na Marechal Deodoro) parecia um ultraje. As pessoas olhavam com um tom de “vou denunciar esse cara para o Conselho Tutelar”.

Quando descemos na estação Anhangabaú, fusuê na plataforma. Tive de dar uns comandos para as centenas que queriam entrar abrirem uma fresta para que pudéssemos passar. Deu certo. Ganhamos as escadas, e depois a superfície. Igor pendurado na minha garupa, como se diz.

Vale do Anhangabaú, treze de junho, dia de Santo Antonio. Escurecia em São Paulo, a quermesse era de outro tom. Caía aquele friozinho que, bem de longe, lembrava a cidade da garoa de certo planalto torto. Pessoas indo e vindo, carros atracados com luzes acesas na ligação norte-sul.

Pouco depois estávamos em frente ao Theatro Municipal. Nossa lição de (fora) de casa.

Semana de vinte e dois? Não, Igor, semana de dois mil e treze; Movimento Passe Livre.

Mais do que isto: sintoma de alguns acordes coletivos. Sonhos de ressonâncias e reverberações: era isso que o prédio imponente de Alvares de Azevedo podia agora nos ensinar. No lugar do Mappin (venha correndo)  as Casas Bahia (quer pagar quanto?) No lugar das vitrines de eletrodomésticos, portas de aço abaixadas. Parecia aquela copa do mundo no Brasil que a gente sempre sonhou.

Mas a guerra naquela noite não seria uma metáfora.

Encontrei por acaso um amigo jornalista (Leonardo Blecher)  que, com uma máquina muito boa, pediu para tirar uma foto. Alertava-me para o fato de estar ali com o pequeno. Algumas pessoas tinham um olhar apreensivo quando nos viam, mas nada comparado aos olhares inquisitores dos que encontramos no Metrô. Que coisa.

Prelúdio.

Deu tempo de tirar a foto, de escutar a bateria e  jovens, como nós, gritando “Ôô, o Povo Acordou”. Alguém ainda desenhava um cartaz. O amigo jornalista tirou sua única máscara do bolso e nos deu. Solidariedade. Agradeci, e devolvi. Disse que nossa ocupação ali era nômade, que estávamos de saída. Zona Autônoma Temporária.

Prelúdio, ainda.

Era o que podíamos: a partir dali teria motivos para temer, e não só ao Conselho Tutelar, teria motivos para temer, e muito, os braços fortes do Estado. Chucros.

Antes disso, colei um adesivo no pequeno pela paz, pendurei-lhe uma margarida em algum lugar de sua blusa, e saímos: ele na garupa, eu a passos largos. Senti que realmente passava algo para meu filho aquele dia. Mais: sentia que ele emprestava certa emanação aos que ali se concentravam. Senti que era esse o nosso manifesto. Parece pueril, mas o termo é: somos tão jovens. (Outros termos: toda resistência é mesmo resistência psíquica, sejamos realistas: almejemos o impossível!)

Esfriava. O trânsito parou. Ouvia de longe helicópteros pausados como os zepelins de Watchmen. Voltar de metrô não seria uma boa com o Igor àquela hora. Os ônibus estavam cheios. Contei meu dinheiro, vi que tinha uns catorze reais na carteira. Dava para pagar um taxi.

(Minutos depois em casa, imagens inarráveis/inenarráveis na cidade)

Altieres Edemar Frei

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