Sobre esses corpos que criam a possibilidade de ali dançar…

A semana passada e essa semana foram intensas a ensaiar e estar no Largo de São Domingos.

Vai ficando mais claro a pertinência para mim de estar ali, e de o poder fazer acompanhada.

Talvez como o tempo parece esccorrer em rodopio em direção ao festival Pedras daqui a nada, também ali no largo o encontro entre a minha dança e esse largo com corpo, parece vir a intensificar-se, abrir-se, alargar-se, desmultiplicando sensações, pensamentos, e conversas de próximidade. Há mesmo uma cadência e tempo próprios aos encontros.

Tenho passado bastante tempo ali, muito dele em silêncio. Num silêncio e num corpo mais quieto, que de vez em quanto deixa a dança acontecer, outras é surpreendido pela familiaridade dos olhares e presenças que me fazem ali sentir-me possível e empoderada junto com o lugar, assim como me sinto cada vez que vou sendo na terra vermelha e extensa africana.

Tem sido muito importante para mim respeitar estes tempos. Claro que podia ter começado logo ali a dançar desde Janeiro. Mas não é sobre isso também. Tem sido para mim sobre o ouvir o potencial do momento mais confluente.

O Gonçalo e a Mariana, a Carol e mais recentemente a Luz, têm preciosamente acompanhado essa pesquisa. E realmente esse acompanhar a partir dum corpo que se deixa feedbackar pelo que a dança dança nele é muito diferente dum corpo que feedback para castrar o potencial da dança !

Tenho aprendido muito no Largo e esse ano no Cem sobre território, conquista, colonização. E também sobre a distância entre as palavras que usamos e os actos que escolhemos ou não.

Descubro que não tenho mesmo em mim o desejo e a vontade de conquistar um espaço no sentido de o ter para mim e de tornar isso contagiável. A minha luta não é essa, não é isso que pulsa no meu sangue. No entanto sinto-me junto com o mundo, com a terra, com a humanidade, lutadora.

Por mais que isto possa parecer romântico ou subjectivo e pessoal, a verdade é que quando estou no largo de São Domingos, quando estou em África, e às vezes noutros lugares que trazem corpo terra mundo abertura ubuntu morabeza dentro, sinto que o que faz sentido ali para mim e na minha vida, é o acreditar que posso ser eu, posso brilhar, posso ser grande, posso dançar, sem precisar de « comprar » confiança ou amendoins, sem precisar de provar que é importante o que estou ali a fazer e de espalhafatar-me em presenças ou de dar na vistas. Sempre senti isto mas agora parece-me mesmo muito forte como a dança traz isso à vista desarmada do ser.

Para mim não se trata de dançar ali porque quero ser vista, mas porque quero comunicar, dançar essa forma de comunicação que faz meu corpo sentir um profundo amor e alegria por dentro. Quando no meu encontro com alguma presença ou olhar sinto que destroi, julga, retem, cria parede ou obstaculo quando danço ali, então é mesmo a afinidade com aquela presença aldeia que se abre no meu corpo, quando assim o consigo. Por vezes não consigo, até porque o Largo são muitas coisas, e não é um lugar felizmente onde uma forma de estar homogénea acontece.

Essas semanas fui estando, conversando, comendo, ouvindo por lá. A Sra dos amendoins vai perguntando se vou dançar e olhando malandramente de mulher a mulher. No outro dia eu dancei com o meu vestido laranja de verão, e mesmo com uma camisola por cima o corpo vira muito sexy. A Sra dos amendoins o disse « sexy hein sexy hein » ! Foi para mim um feedback. O Sr do chapéu branco têm-me acompanhado imenso. Vai querendo saber que horas e que dia vamos ali ensaiar, recebe o Etienne em francês, conta-nos que viveu na Guiné Conakry, e que ali a maior parte são de Giné Bissau, Senegal, e do lado mais do Rossio são mais as pessoas do Mali, como conversam em línguas diferentes…aqui fala-se português, criolo ou francês… e um dia disse « estou aqui um bocado ainda a fazer o tempo, depois vou à mesquita e a seguir casa e jantar pelas 22h ». «  Como não tenho trabalho fico aqui no Largo ». Existe também ali uma dignidade sem vergonha, um respeito despeito. Elas ando muito bem vestidas. Eles também. Olhares que parece que têm a imensidão da terra à volta.

Ontem apanhei uma briga, discussão entre a Sra dos Amendoins e o Sr do Chapéu branco…não percebi do que se tratou apesar de ter perguntado. Uma outra Sra diz sorrindo que eles brigam assim de afrontar, mas parecia não ser para destruir, no entanto era forte e franco aquele lado a lado, e parecia que falavam para a frente ou de lado enquanto discutiam, deixando o corpo livre da frontalidade.

Um dia eu e o Gonçalo ficámos bastante tempo a apanhar o som do largo. Uma coisa louca de rodopio e de lençóis de vais e vens de sons com pesos e cores diferentes, como ondas de vibração.

Outro dia estivemos bastante tempo em silêncio os dois, eu pelo menos com o coração aberto para o que estava acontecer entre o corpo do largo e duas crianças minúsculos que se deixavam levar pelos canais de ar e presença no largo enquanto corriam sem fim nem intenção de parar atràs de pombos, gritando a alegria de serem tão livres ali ! O menino passou às tantas dos pombos para o chutar um copo sujo de ginginha e o movimento continuou o mesmo, o da relação. Até que ele acabou por chutar para o Gonçalo e senti o corpo abrir mais um pouco, e depois ele foi chutanto para os srs do muro da torlerância. Vi muito a simplicidade com que a dança às vezes pode acontecer ali.

Quando dancei pela rota de sexta passada, em que já vinhamos a caminhar há muitas horas, com comunicação da Camila logo cedo e ensaio do CRU no Cem mesmo antes, senti chegando ao largo um susto, o de o meu corpo ouvir a possibilidade de ficar na distância com aquele momento. Talvez porque o dia vinha também trazendo distâncias os diversos caminhos que todos iamos fazendo. Mas então como me aproximo do outro ? Fui apanhada pela surpresa e decisão quase magnética de ir para perto da multidão de pessoas que estavam junto do muro da tolerância nesse dia !!! Um mar de gente de vozes de sons de histórias, que não me chegavam como confusão mas como jingas, curvas, caminhos no corpo. Fui. Fui cumprimentando, apertando mão, como estão, vai dançar ? Vamos ! E fui sentindo aquele lugar largo e cheio ao mesmo tempo me apanhar dum impeto a anca e pôs-se a dança a levar-me num corpo que roda escorrega entra naquele estar expandido e forte naquela energia que não se apanha porque não é possivel partilhá-la atravessá-la num corpo fechado ou indiferente.

No meu corpo foi forte sentir isso ali. A Sofia estava muito perto a costurar acho. Diz que sentiu que a dança abriu outra coisa que se calhar não estava ali. E perguntou-se se o corpo que dança não podia aparecer dessa expansão e crescimento desde a quietude que não é com certeza sobre movimentos lentos ou pouco agitados. A Luz achou muito pertinente a presença da dança ali no meio daquele mar de pessoas sentadas e enraizadas mas fluidas. A Mariana falou em vulcão e senti algo da lava que escorre. O Gonçalo viu uma trepidação no espaço da dança, que sentiu ser mesmo uma relação não forçosamente visual com o espaço e diz que os seus olhos podiam parar na dança como podiam ir vendo outras coisas, passar por ela e continuar. Apareceu-lhe o corpo lado a lado a três dimensões ! Que lindo ! Perguntei-lhe se a dança era uma comunicação . Ambos dissemos que sim, isso é claro, mas é incrivel porque traz a pergunta na propria comunicação. Não estou ali a dançar porque sim, mas porque algo ali quer ser indagado no meu corpo que investiga. Também por vezes o corpo ficava sentado no meio, na quietude da respiração celular. Muito forte este estar que não ignora, nem discrimina. Apareceram caminhares com bocas, rostos, caretas, histórais, para além daquele mar de gente, e por vezes outra dança perto da oliveira.

Ontem estava tudo do lado da árvore.

Começámos a trabalhar o vir da rua de cima com os baldes da Luz que poderiam servir de bancos para a conversa do BSS. Fui poisá-los no supermercado africano lá em cima e vim descendo com eles até ao largo. Cheguei mesmo enquanto Sara a experimentar poisar os baldes perto dos bancos do muro que estavam vazios. Nesse instanto pareceu-me estranho imaginar o BSS ali com pessoas à sua volta ! Era fixe conseguirmos estar lado a lado nessa conversa !

A Luz propôs trabalhar sobre ir trazendo os baldes/bancos um a um, eram apenas 6 ou 7. O que me pareceu mais curioso foi esse trânsito do balde como mercadoria, e o entrar e sair do supermercado onde também parece uma aldeia. Ir ouvindo o tecer e destecer com o migrar com o balde e trazê-lo para junto de quem estava ali. Tinhamos estado sentadas neles à chegada ali ontem. A Sra dos sumos acabou por virar um para se sentar na parte com aberta do balde.

Depois passei meia-hora a caminhar atravessando o largo e deixando-o transbordar para além dele. Nalguns lugares é muito claro quando o largo é ainda o é ou traz outra qualidade. Caminhar caminhar caminhar…trânsitos, migrações. Como é o corpo que traz isso nele mesmo que não tenha acabado de o fazer ? Fui até ao Coliseu e voltei e nessa chegada apareceu aquele sentimento do largo a acolher-me e eu acolher o largo, a emoção do desaguar do corpo no corpo. Os braços viraram coração e meu corpo sorriu e chegou perto da oliveira onde acabou por se por a dançar entre aquelas pessoas, sentadas de pé, africanos e africanas, turistas, moradores, um bêbedo, o sr que faz os amuletos, a srs das bebidas, um sr de camisa verde que a Mariana diz que acompanhou tudo e foi conversando sobre o tempo todo. Tenho que ir falar com ele. Dancei dancei. Ouvi a possibilidade de aprofundar essa dança. A Luz diz que podia ouvir suspensões como possibilidades de mudar de corpo, mesmo que não mude. Sim, faz-me sentido ouvir os sons e vozes nessas suspensões. Uma Sra talvez passando por ali por acaso, ficou lindamente bem junto, claramente vendo olhando, mas sem ser espectadora, estava junto com essa forma de acompanhar com olhos de ver que não separam nem param ali. Abriu-se um espaço de comnicação muito interessante, de co-habitação de familiaridades de corpo que não se dizem, sentem-se. Apenas eu dançava, até chegar o bêbedo que apanhou a abertura enorme que o espaço ainda assim consistente abriu. Mas todo aquele lugar estava com corpo de dança. O Etienne diz que é muito surpreendente e que o encheu de perguntas sobre o que é dançar ali !

Conversamos sobre esses momentos da dança, dos trânsitos e da possibilidade de deixar aparecer nos atravessares do espaço o ser atravessada por outras viagens e pessoas e caminhares dali de mim, do encontro em migração. Pareceu-nos também que a dança deveria escorrer para o trânsito do trazer as cadeiras ou bancos (os baldes não são confortáveis!), desde o supermercado até ao ouvir da voz do BSS, e que isso era fixe ser feito colectivamente.

Sara

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