políticas de seleção dos mais fortes (em quê?) ou o que é a escola?

ontem foi o último dia regular de aulas na escola da rua da madalena.por entre os abraços ternos,os olhos brilhantes de vida, havia no ar um nevoeiro denso. as crianças do quarto ano receberam as notas dos exames e a sementeira de mediocridade devastou esta “aldeia” onde a elda e a inês têm plantado amor,confiança, escuta,suporte-autonomia, curiosidade, com a nossa companhia permanente. 2 deles chumbaram e a avaliação geral é muito fraca.

para variar, a aplicação destes procedimentos políticos que temos vindo a sofrer cria um fosso imenso no tecido social e humano pelo desajustamento à realidade do hoje e do aqui. é impressionante a desconsideração descarada pela tecitura complexa de cada criança, pelo fortalecimento dos laços eu-mundo, pela vibração do descobrir-encontrar-integrar e criar conhecimento.

a fresta de exposição de “informações” que norteia a avaliação dos alunos é miserável e a elasticidade na leitura daquilo que eles conseguem expor em resposta ao que lhes é solicitado em exame é inexistente. não falo de paternalismo, de passar a mão pelo cabeça  com aquela atitude de benfeiteiros encantados com a própria beneficência enquanto desrespeitamos aquele ser-criança.

falo de ouvir-ver que educação estamos a criar, que tipo de pessoas, de cidades, de mundo, estamos a promover, que visão a médio-longo prazo sustenta esta carnificina? é indubitavelmente um extermínio do homo-pensantus do homo-existentis em prol da produção de homos-idiotus e de homos-funcionalus. é evidentemente  uma política contra a imigração, segredando cirurgicamente a população oriunda de outras culturas e impossibilitando a integração de quem não corresponda ao nivel medíocre de alimentadores da máquina governamental.

mas qual máquina? esta seleção do “mais forte”, a seleção do servil, do que aceita logo com 6 anos ser escravo, tem por objectivo que tipo de força? esta competitividade tem por função preparar as crianças para quê? desculpem mas não me chegam justificações que apelam ao capitalismo, à economia, às políticas de controlo….o que sinto é uma tremenda falta de visão. nem me parecem medidas maquiavélicas tipo banda desenhada onde aparece sempre aquela criatura pequenina que quer governar o universo, o que vejo é uma aflição de criar remendos num sistema moribundo…tipo frankenstein.

inventam-se programas de apoio aos “estrangeiros” e depois os exames esquecem-se que estas crianças ainda há pouco tempo nem “bom dia”podiam dizer?

só no 1ºano da escola existem miúdos de 7 nacionalidades diferentes e 80% não falam português. mesmo muitos dos que nasceram cá, mesmo os filhos dos bairristas e fadistas e “faca na liga”, só comem diariamente os lanchinhos que a escola oferece, chegam de manhã com os corpitos enxovalhados de não terem dormido mais uma noite, não têm com quem partilhar as descobertas e os encalhamentos de cada dia senão nesta tal aldeia corajosa que insiste em não sucumbir à infelicidade e ao desgoverno….e são estas crianças que nós acompanhamos, muitas desde a creche, que escrevem textos de asas abertas, que discutem biologia, que analisam história, que inventam danças, que desenvolvem fio a fio a capacidade de ouvir o outro, de se respeitarem a si mesmas, de criticar e recriar situações.

são estas crianças que, se as quiserem ouvir, sabem as “matérias” sim, integraram-nas, sabem contextualizá-las, sabem pensar a partir delas.  são estas crianças e estes adultos que, juntos têm densificado a confiança em si próprias e tecido outras formas de estar neste mundo sem ser via destruição e embate.

estivemos juntos ontem a conversar sobre a acampada do dia 2, sobre o livro que criámos nesta caminhada, sobre como qualquer criança, pai, tio, amigo, se pode ajuntar na continuação do trabalho agora que as aulas terminam. estes atravessamentos que não se fecham no “tempo curricular”, nas formalidades instituidas, continuam a não ser nada fáceis de acontecer. entregar um papel a dizer que isto e isto e isto vai acontecer, convidar a continuar sem lhe chamar “praia-campo”, “colónia de férias” ou “ocupação dos tempos livres”, continua a ser um trabalho intenso ,mas na relação um a um, no olhar nos olhos, no dar a mão, no sentar lado a lado, vai-se criando uma força densa que não é nem invisível nem intangível, está mesmo aqui.

para o ano nem a elda nem a inês vão estar nesta escola. a força da tal “máquina” (que me parece mais um cenário do que outra coisa ) vai continuar a romper, a rasgar as teias que se vão criando.

aranhemos.

continuemos a revoada!

sofia e lyncoln

One comment

  1. elisabete

    Contra a máquina burocrática só vale mesmo a pena relembrar o que a corrompe: raiva e amor e mundo e raiva e amor e mun
    Como tu, eu também acredito que para além de se fundar na economia estas medidas que se escudam na defesa do mérito mais não fazem do que garantir que a escola volte a ser um antro de segregação e que todos se mantenham nos lugares para os quais estão predestinados. Porque a escola de onde eles vieram funcionava tão bem – porque eles que eram das famílias e das cidades e tinham os livros e as línguas e as mães e as criadas tinha muito mérito que assentava na incapacidade de ver quem não era como eles e todos aqueles que a escola tanto violentou e continua a violentar.
    A escola pública é de todos não é do governo, não é do ministro, não é dos burocratas mais ou menos paternalistas, não é dos que têm medo que os outros conheçam e pensem o que els não sabem pensar nem sentir. A escola pública é nossa e vai continuar a ser, mas é preciso mundo e amor e raiva e mundo e amor e raiva e mundo e raiva e amor e

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