ainda há…

Agora já não encontro os miúdos na escola ou na creche, já não temos sessões do Corpo na Escola, nem do Corpo na Creche… vem aí mudanças nas rotinas, são feriados, férias e rebuçados…

 

Abro o peito para continuar na descontinuidade dos encontros, e na força que se fez entre cada tempo de encontro com cada um que cruzou esses lugares de cruzamento mais regulares, por dentro da escola e da creche, e isso ao meio da viagem, sabendo que não pousamos nada agora… procuro seguir e respeitar o que pergunto com o trabalho mais próximo aos miúdos, não prender-me a lugares fixos de relação, tento não me fechar ao ouvir as diversas linhas que se bifurcam, tão malucas, das nossas práticas de estar junto sem nos dividirmos em grupos, idades, saberes, géneros… sem ter as diferenças como isolantes ou determinantes mas antes como criadoras de ambientes. E assim é que seguimos começando e recomeçando…

 

Isso também não serve a nada. Não leva a lugar nenhum. É a aventura de estar onde estamos sem retirar o infinito desse espaço que é agora, que é aqui. A casa 9-9a, que habitamos desde há quase três meses, com crianças, adultos, adolescentes, cães, gatos, semente, rebentos, frio e chuva oferece algumas questões a volta dos espaços que habitamos, da possibilidade de serem muitos e únicos, que podem ser percorridos, vividos, deixando pulsar possibilidades de criação a partir do não isolamento, do não fechamento em série e etapas, de replicação de processos. Todos passamos por idades, já tive 10 anos como o Filipe, e não se comparam os caminhos, os passos de cada um nessas travessias. O encontro são para reger as nossas possibilidades de passagem.

Quando um espaço é abandonado, é abandonado por quem? Quem determina espaços abandonados? Um lugar, uma casa, uma pessoa só é abandonada se for abandonada… me parece que há uma cumplicidade cruel aqui…

 

Não acredito que possa agora abandonar aquilo que venho acompanhando. E por isso tenho que ter coragem e confiar que por mais que venham mudanças, descompassos, como o tempo que vai passar-se até eu reencontrar Nila ser maior do que desejamos. É preciso ainda mais elasticidade nas proximidades, deixar que não pareça que se as aulas acabam então as relações abrem fissuras que criam riscos na continuidade, é urgente ter uma atenção que não se foca nestes eventos de calendário, nestes ciclos de funcionamento das instituições, que minam as ligações com os espaços e os lugares por onde passam as pessoas. Mas então é óbvio que não podemos nos deixar tão dependentes desses vínculos, que nos querem prender e privar dos espaços e tempos de encontro, de vida e de diversidade. Me parece que abandonar não é ser esquecido ou esvaziado, mas sim ser tomado, conquistado, preso e isolado e preenchido por tudo aquilo que quer impedir-me de continuar abrindo espaços insistindo em ser no outro, em novas possibilidades, em outras realidades, outras histórias…

 

 

Na revoada de ontem, choveu e fez muito frio, vieram somente eu o Pedro, a Rita, a Vera e a Sónia, as tantas a Rita, que às vezes se demora numa minuciosa procura de contratempos nas conversas, perguntou: “mas eu não percebo, porque é que vocês vieram mesmo com tanta chuva, não percebem que assim os miúdos não vêm?”, e eu respondi à ela:” eu não venho cá só por que os miúdos vêm e tu não podes vir cá só porque eu venho…”.

 

Não quero encontrar ninguém por estar preso à dependências e compromissos que me dizem como ir ao encontro. Não nego nenhuma dependência que apareça. Mas não me abandono tão facilmente.

 

Que não fique preso às dependências a potência dos encontros nos ires e nos vires.

 

 

Lyncoln

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