um harmónio da penha de frança à rua do machadinho e a macromagia do microbaile

escrevo com amor, palavra por palavra agradeço o que vou sendo nesta companhia indescritível de quem vai sendo comigo:

são 9 da manhã e estou a chegar à penha de frança onde morei sózinha pela primeira vez. a camila está na cesário verde esperando os rotadores e convida-nos a descer ao intendente, por entre armários atirados pela janela, colchões e mais colchões abandonados às portas das casas, chilreios de pássaros e guinchos das obras que insistem por toda a parte. a rota é longa, segue para a achada com a chuva a molhar-nos a roupa e os pés seminus. aqui ao lado da casa-buraco 9-9A está em obras o prédio de frente e de costas. a parte que dá para baixo tem uma distancia de um metro do prédio da frente,  acho graça à camisa branca estendida no meio da poeira das obras. descemos à casa dos bicos onde as crianças da escola da madalena têm uma”atividade”” que afinal se refugia na casa de lafões com tanta chuvada. estão vestidos para a marcha e com umas capas de zorro e chapéu de estudante feito em cartolina(molhada, claro) e começam a dançar hiphop com uma energia deliciosa! estar ali com este bando de crianças e sair rumo ao mercado com a sensação de que estás com cada uma e cada um, que nos conhecemos mesmo,que os abraços não são formalidades, é muito bonito.

a minha saia branca já se molhou e secou 3 vezes. a rosa do mercado vem dar-me os tremoços e as azeitonas sofia-rosa-sofia-rosa. os nossos amigos da crinabel não se ajuntaram hoje porque ninguém tinha trazido chapeú de chuva. vejo agora o alex que veio do méxico, que alegria estar aqui com ele! sinto muita força feliz no ar. uma força que me interessa muito, que me nutre, uma coisa que não é falsa, que não é para pertencer a qualquer coisa, talvez o tecido liso do deleuze e do guatari, talvez…

do mercado passamos à paula na rua da boavista e seguimos à taberna da isabelinha na cruz dos poiais. ela foi tirar um dente e tem muitas dores mas está tão orgulhosa de nos ver lá numa revista a anunciar a chegada dos microbailes! chega o guitar men e cantamos o “encosta-te a mim” e os pink floyd. descemos outra vez ao largo de santo antoninho onde a susana tem estado cada dia e onde outra susana vem hoje dançar. é curioso que o palco e as barraconas de cerveja não lhe tiraram a paz. os vizinhos dizem que à noite a música é ensurdecedora e que durante todo o mês não se pode viver ali,mas a esta hora está muito suave. as grinaldas que este ano tenho visto novinhas a estrear pelas varandas e ruas, o festão colorido que anuncia os santos, é aqui mais próximo do festão que vi o ano passado pelos bairros: as sobras dos anos anteriores, desbotado e meio depenado mas ali cheio de orgulho!faço agora um desvio rumo ao palácio do machadinho para assinar uns documentos aqui na madragoa, lisboa aparece tão próxima, ainda tenho os cheiros da penha de frança e deixo-me agora demorar pelos manjericos deste lado.

sofia neuparth, queria tanto conhecê-la ao vivo, tenho acompanhado o seu trabalho já há 20 anos e ….venho com este corpo-rua, não há onde possa alojar-se o cerimonial dos elogios, entre o contrato importante e contar histórias do algarve ou ali do mercado vai um fio de cabelo. ..lá se transformam os salamalecos em cerejas….como as conversas…tenho cada vez menos resistência para acolher mundos de mentiras e aspectos… existo nas formas próximas de gente próxima.

desço a ajuntar-me aos roteiros na travessa do cotovelo e sigo com o pedro ao energúmeno fascinante que trabalha ali na praça do município. compõe a gravata e aproxima-se da colega lindíssima como quem estivesse estado às beijocas atrás daquele balcão onde são prisioneiros. tiramos a foto de família e passeamos entre o nureyev  e outras bailarinas-amigas em comum.

comum.

rua da conceição. compro um elástico na retrosaria que a saia branca já está a cair de tanta chuva e e poeira. na rua dos douradores entramos em conversa com a adega dos lombinhos e as desventuras das histórias mal contadas de arrendamentos e desalojamentos. a rota continua no estúdio do cem com o convite da mariana a dançar o C.R.U. por dentro da viagem e seguimos ao largo de são domingos onde dança a sara-laranja por entre o vozeado colorido dos guineenses junto à “parede da tolerância” .coso o elástico partilhando a tesoura com um senhor mais velho que faz colares. os trânsitos desta praça são realmente uma paisagem absurda onde co-existem as formas de vida que mais improvavelmente se encontrariam num mesmo cenário. atravesso a praça da figueira mais a cadeirinha antónia ainda com a sensação de que terei um pouco de pausa antes do microbaile….mas a pausa deixa entrar a euforia da dança,já nem me lembro se almocei, o peito abre e começa a nascer o bicho-baile.

ainda não chegámos à dádá e já o riso está nas pernas, no coração, no rodopio da saia, nas mãos, na boca. é um estado de microbaile.

a margarida irradia luz, a criançada não para quieta com a excitação da festa,é o estado em que podemos mesmo presenciar magia.

vamos rumo ao intendente eu e o pedro cantarolando. o bar tão pequenino e vá de bombo e mais de caixa e mais de gaita e mais de duas filas de pessoas a dançar a saia da carolina! uma fila que se estica desde o jogo de setas até cá fora à rua.e a chuva sempre a espreitar, e os instrumentos não podem apanhar chuva…e ninguém arreda pé e a chuva desiste e vai molhar para outro lado.

uns penduram as rosas de crochet outros ajudam a passar os carros, os pares sempre a trocar, agora a mão na tua mão agora na cintura dela. mesmo no meio da rua, se não tens par e estendes a mão a teu lado, aparece logo uma mão que encontra a tua mão e vem rodar contigo. a dádá de saia comprida e blusa vermelha, glamorosa como uma rainha e com aquela capacidade de acolher tão doce e carinhosa, é inexplicável a sensação de ser bem vinda, eu e a festa toda! chegar ao bar sarriá e encontrar ela e o zé luis por detrás do balcão,com aquele sorriso aberto de quem está mesmo disponível é uma sensação de imensidez  muito forte! o acorde deste abraço no intendente com vibração do microbaile é um tesouro.

é que o microbaile emana essa imensidez, essa simplicidade sem rodeios, sem truques, o coração aberto, como se pelo meio da dança pudéssemos fazer as pazes com sermos humanos.

a rosa galega encosta a porta da lavandaria e vem enlear, tem estado em baixo de saúde, ela e a neta que parece sua filha, de olhos redondos e cabelito com reflexos alaranjados, mas quando a vejo na roda a galegar só transborda alegria.

a minha boca não larga o riso.

a mãe da rosa, o paulo mecânico, a aurora e o marido, cada pessoa à janela se apressa para a rua ou festeja mesmo ali!

o joão do café está cansado da semana, o baile chega à sua porta. joão, já estamos  aqui. eu ouvi, já aí vou. e quando se assoma à porta dá com a festa já brilhante, com as grinaldas, a música, velhos e crianças e quem passa ou acompanha amando este carrocel vertiginoso. não me desaparece a luz da cara dele quando pausou à porta do cafézinho e encontrou este universo.

o micro baile macro mágico continua para o largo da severa, querida piedade chorando à janela, agradecida de tanto amor. as membranas do espaço abanam. lisboa despretensiosa, inimitável. danças de roda, de corredores, de pares. um bando de criançada vai correndo em voltas com os panos rosa e vermelhos que vinham nas caixas da fruta pintadas também de rosa e vermelho. a música serpenteia lambendo as tristezas.

na felicidade radiosa esqueci o meu saco no chão mesmo frente ao café do joão e nunca mais o vi. fiquei sem telefone, sem dinheiro, sem documentos, sem chaves de casa, sem a máquina fotográfica que tem sido essencial nas rotas, sem o caderno que escrevo cada dia e sem os livros que tanto esperei por poder ter.  a angústia de reconhecer que fiz asneira e que vai ser muito difícil recuperar as coisas, então agora que estamos tão reduzidos de possibilidades de vida, abriu uma ferida no peito e o baile ía a meio…mas era impossível, e ainda hoje é, valorizar a perda da mochila e das coisas importantes que lá estavam, no interior deste banho da atmosfera do microbaile.

a piedade ouviu-me a cancelar o cartão multibanco e disse: se eu só tiver 10 euros 5 são para mim e 5 são para si, é como uma filha para mim! ela de robe azul num abraço longo e sentido, eu escorrendo lágrimas no ombro dela, a janela aberta para o largo da severa e o baile pulsando, agora já no final do encontro, entoando canções do alentejo.

não quero que vás à moooooooooonda, nem à ribeira lavaaaaaaaaaaaaar

a noite a descer, a energia terna impregnada em cada dobra do corpo, das ruelas, dos foles da gaita.

nada disto tem que ter uma justificação. nasce e faz-se corpo assim,como um malmequer, uma papoila ou uma oliveira…entre o vento, a soalheira, a chuva, os corropios, os trauteios e os chilreios.

vai uma ginjinha?de óbidos, a terra que acolheu os meus pais assim que casaram e onde eu me fiz semente também

sofia

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