Experiencia 14

Abandona o Cais do Sodre e vai no estudo, aquele estudo de gravação da stress-fm na rua das Janelas verdes. Pensa no que pensa, faz uns tempos que esta as voltas da estação e da Praça de Comercio,,, olhando, dançando, falando o que vê, falando o que faz, o que lá esta e nao esta, um podería, um sim, um nao, um talvez… Agora neste momento, do lado da janela, fecha os olhos, tem um microfone diante da boca, esta de pé e vai começando a gravação, a gravação que fala dum lugar, dum lugar real e imaginário, um lugar que só existe no momento de ser falado, que se faz nessa acção da fala:

“estico o ouvido por encima das crianças da creche,,, até o rio,,, até escutar as ondas,,, até ouvir o grito da mulher que vende nisperos em Cacilhas…

… tenho os punhos apertados, a língua meio-seca e o pé direito um bocado fora do eixo, descentrado diria. Giro sobre minha bacia, e, e, e os olhos se desfocam por segundos até só se verem manchas na minha frente, uma mancha ambulância, logo a mancha eléctrico e uma mancha móvel de senhor com moletom azul, muita mancha de céu enchido de pombas e continuo girando, girando, GIRANDOOO cada vez mais divagar com os pensamentos ali, ali no pingo doce, pensando numa garrafa de agua, pensando no frango assado baratinho…

Escorrego… deixo-me cair… almofado-me na pedra… e quero dormir na pedra… quero encostar a orelha na pedra para ouvir os passos… quero ver o mundo a ras de chão… quero viver deitado… deitado assim.

Viver e morrer, viver e morrer, viver, morrer, viver, morrer e viver, viver, beber coca-cola, morrer, viver e uma camiseta listrada, um copo de agua, as câmaras fotográficas na mão, Nikon, Optimus, fuji, os carros na estrada lá no fundo, turistas, sapatos de salto alto.

As pessoas vão ficando pequenas na estação, todos se mexem mais divagar, como se não tivéssemos rumo, andamos em curvas e as linhas tem perdido o destino, já não há Cascais, não há Odivelas, nem Queluz, nem a Parede, o rio se faz mar e ninguém consegue enxergar Almada,,,  a terra se faz montanha e os caminhos se perdem nas arvores, nas gaivotas, no gesto da senhora que acaricia o cabelo, no amarelo, no azul, no cinza, numa luz e numa sombra…

todos caminhamos sem rumo e nos encontramos sem porque, até que a estação é só uma lembrança.”

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