o coração não se engana

a rota desta sexta começou mesmo frente à crinabel, no largo de conde barão onde a escola académica de que o meu avô era director e onde o meu pai fez a quarta classe morou até pouco anos depois da morte do avô mário.

levámos para a rota um coração íman. ó andreia vê lá se isso aí é metal.o rui que é mais alto experimenta nos lugares onde ninguém chega. a carolina quer é ficar com o coração para ela e o filipe começa a ver se o coração se agarra aos cds mas já está perdido à procura de música boa.no café da paula mesmo ao lado da escola das gaivotas descobrimos uma madeira que afinal é uma viga de ferro e uma barra de metal que afinal é de plástico.

o coração lá vai contando as suas histórias de amor pegando-se e despegando-se conforme as atrações lhe são mais ou menos afins. no mercado da ribeira o cenário de palmeiras em vasos faz-se telenovela para os beijos da joana e do rui e o tomás, já que o antónio não veio hoje, faz as vezes nas dicas charmosas! ai a primavera dos namoros e dos espirros.

dizem que vai ser o verão mais frio dos últimos 200 anos, ena!

a fátima dos legumes está pronta para pendurar os balões de papel que sobraram do ano passado e a amiga da jesus do peixe que já cá está desde os 12 anos diz que gosta muito de nos ver aqui. gosta do convívio e de lhe trazermos a fanzine, ainda bem.

hoje estive ao lado da fiscal do mercado, “a chefa” como eles dizem.

ainda não a conheço, para já escuto a rispidez mas continuo a achar maravilhoso porque não vem falar connosco. aqui os vendedores estão sempre à espera que ela venha correr connosco, dizem que toda a gente pede autorização para fazer ali trabalhos…lá estamos nós no fiozinho da navalha entre a arte e a vida.

os viajantes-rotadores seguem para a rua de são paulo ao lado do elevador da bica. é a groovie records, um lugar de trabalho para a flávia e para o edgar onde às vezes ao sábado se abrem concertos. somos acolhidos com grande simpatia e até nos fizeram um pin cor de rosa! o hugo não larga a bateria e o filipe entra pelos vinis dos beatles e só sai de lá com o “love me do” que se fez coro mais à frente na mercaria da travessa do cotovelo.

a obra aqui ao lado da “cabaça de mel” chegou ao fim,parece que vai ser uma loja de decoração.

o senhor todo tarzan de polo verde metido dentro das calças beijes e bíceps cheios de veias a espreitar da manga curta, dá as últimas instruções ao cabo-verdiano que tem que trepar por cima de um andaime enferrujado fracamente encaixado noutro andaime enferrujado.

anda lá.não tenhas medo,sobe aí e passa-me esse cabo. ele sobe, a uma altura de 3 metros e tal, como passo fraquito e pouco seguro, o andaime abana e nós cá em baixo na conversa como se não estivessemos todos na eminência de levar com o cabo e mais o cabo-verdiano e mais os dois andaimes na cabeça….mas olha,o filipe ao menos canta o “love medo”.

a alda está sorridente,gostou da companhia destes trabalhadores alpinistas e parece que vai continuar a gostar porque vão começar brevemente aqui ao lado no armazem da travessa do cotovelo.

deixamos azeitonas e tremoços oferecidos pela rosa do mercado para os homens das obras que aqui vêm ao fim do dia. os amigos da crinabel seguem para o seu almoço e nós seguimos para grelhar no terreiro do paço.

sol a pique.

passa de vestido roxo às flores uma lindíssima amiga que agora está a criar a sua vida com um conjunto de pessoas no campo ali do outro lado do rio…ela está luminosa sim. diz que estiveram a plantar até às tantas da manhã.

sempre pensei que o meu trabalho é na cidade, pelo meio desta pressa desumanizante, ouvir o brotar contínuo do amor, confiar em estar viva pelo meio deste universo de consumismo e de jogo viciados de poder…mas às vezes sinto-mesmo pequenina…

oh! olha duas borboletas aqui numa dança furiosa na esquina da rua dos douradores. de repente cheira-me ao livro do desassossego de fernando pessoa.

a adega dos lombinhos não serve cafés. para se ver livre da irritação com que me atendeu, o cozinheiro vem cá para fora à carrinha do senhor guilherme,para dois dedos de conversa. estamos de volta do jornalinho da escola da madalena. histórias escritas sem medo pela criançada, com erros de ortografia sim,mas sem erros da redução idiota que nos constrange e nos amputa logo de pequeninos esta confiança de inventar, de criar!

a rota está a chegar ao fim,os corações ímans já ficaram apaixonados pelos metais que encontraram no caminho ou já vão no bolso de alguém experimentar paixões para outras paragens.

passamos ainda na lúcia cabeleireira africana ali nos arcos à chegada da rua da mouraria. é a primeira vez que aqui nos demoramos. pela simpatia com que somos recebidos não será de certeza a última.o pedro passeia de cabeleira grisalha e a lúcia ri. encantam-me as cores das prateleiras e as cabeças destas bonecas finas a expor perucas.

segue a rota rumo ao joão e à alice do benformoso. o meu saco vermelho com rodas,que se chama pipoco para ser o cão amigo da pipoca  da amália e do felismino, conhece o saco com rodas do joão que também é cão com nome,não me lembro qual…

para a semana já passa aqui o microbaile. não sei porquê mas tenho os pés muito ligeiros hoje, o rabo leve, as pernas têm vontade de subir até á cabeça. deve ser já o baile a impregnar-se no ar!

rotamos até à dádá e à rosa mesmo à boca do intendente. é por aqui que na sexta vai começar a bailação.

à volta pausamos um bocado nos bancos frente à rua do capelão, as revistas da arminda foram maravilhosas para esta fanzine que se encheu de bordados e de rosas à volta da lavandaria da rosa que afinal, com tanto empreendedorismo social de olhos postos nestes bairros, está à beira de fechar portas…mmmmmmmmmmmmm…vamos começar de novo rosa!conversamos esta semana, essa tua fabulosa forma de ser nutre estas paragens com uma justeza incrível,vamos lá  bater o pé, começar de novo!

pois estávamos nos bancos frente à rua do capelão…no banco do lado do centro comercial está um trio animado. nesse trio a arminda diz que já não pinta,que deu os quadros todos, que o marido teve o avc e que o sobrinho a trata mal. muita desgraça, mas desgraça velha….nada de desgraças novas…então arminda, para a semana a ver se vens dar um pézinho de dança. ai que não posso….ai que quero….ai que venho….venho sim….até sexta!

sofia

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