a baixa sem moradores ou “O Erro de Salgado”

hoje recebemos mais um texto de alguém indignado com a “desumanização” da baixa de lisboa. antónio manuel  opõe-se aqui ao arquitecto manuel salgado e à sua visão da baixa “para habitantes de curta duração”:

O ERRO DE SALGADO
Em novembro de 2008, teve lugar no Teatro de São Luiz um debate sobre as
políticas de intervenção na Baixa organizado por um grupo de cidadãos de
Lisboa e onde tive a honra de participar como convidado; na altura, alertava já
para o erro de se subestimar a Baixa, nomeadamente negando os mitos da sua
desertificação e da idade avançada dos seus habitantes; nesse debate, o
arquitecto Manuel Salgado em nome da Câmara Municipal de Lisboa, sem
conhecer a realidade que tinha já o novo quadro demográfico da Baixa,
reafirmou esses mitos defendendo que a “Baixa não é um bairro”, “não tem
condições para pessoas com carro, a meio da vida” e que é sobretudo “para
habitantes de curta duração”.
Este erro de Salgado foi não só um erro de leitura, mas, sobretudo, um erro de
estratégia, ou seja, um erro de subestimar a Baixa, as suas capacidades de
atracção, de não acreditar nas suas potencialidades e naquilo que ela tem de
mais importante – as pessoas.
Disso se apercebeu, na altura , a jornalista Fernanda Câncio , também ela uma
nova moradora do centro histórico e consciente desta realidade, a fazer parte da faixa etária maioritariamente representativa dos moradores da Baixa que
Manuel Salgado subestimou e que eu ali trouxe com os dados mais recentes da
minha Freguesia: dos 1155 recenseados só 342 têm mais de 65 anos; 228 estão
entre os 18 e os 35 anos, e 585 entre os 35 e os 65 anos. Por essa razão, escreveu uma crónica no DN em 14 de novembro de 2008, que intitulou “ ‐ A Baixa por alto”, ou seja, a Baixa das leituras apressadas, pouco condizentes com a realidade que o arquitecto Manuel Salgado ali apresentou.
Volvidos quase cinco anos deste debate e três da aprovação do Plano de
Pormenor e Salvaguarda da Baixa Pombalina (dezembro, 2010), olhamos para a Baixa e constatamos infelizmente que a maior parte dos projectos de reabilitaçãorealizados são projectos voltados para “os habitantes” de curta duração, para o turismo, para os investimentos de fundos imobiliários e pouco, para Baixa‐das‐Pessoas.
E é precisamente aqui que reside o erro de Salgado, o de colocar em segundo
plano as pessoas – a Baixa‐Viva; ao fazê‐lo está a subestimar a Baixa e a cometer aquilo que Fernanda Câncio alertava em 2008 ‐ “um erro politico” e “um crime de mata‐cidade”.
António Manuel

 

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