uma geografia de vida

as mãos deformadas, as costas tortas, os joelhos doridos, eu sei porque estou assim.

todos os dias ía buscar o leite ao areeiro e trazia a pé os 50 litros até à almirante reis. havia uns fiscais com um termómetro porque diziam que os leiteiros mijavam no leite, parece que aquilo dava a temperatura e a quantidade de gordura. eu nunca mijei no leite, credo!

tinha uma bilha de 10 litros que fazia a distribuição de porta em porta, o vazilhame ficava na porteira da almirante reis que me lavava as bilhas, sempre não as carregava de volta aqui à mouraria.

saía cedo de casa, o meu marido era padeiro de maneira que vinha depois fazer-lhe o almoço, passava ali à praça do chile a comprar peixe, elas punham-me lá o sal, vinha fazer o almoço, ele descansava um bocado e saía outra vez lá para as 4 e meia 5 horas e eu voltava para a venda da noite.

são estas as pessoas que agora se vêem sózinhas e em risco de ficar sem as suas casas….o que vale,diz ela, é que daqui a 5 anos já morri!

sofia

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