Corpo ao largo

Caminhos e pensamentos a dançar

 

um espaço com corpo, que parece ir-se tecendo continuamente, que transpira simultâneamente um enraizamento, uma permanência, um estar que vai ficando, e um migrar permanente, no próprio estar que fica e nos fluxos que atravessam este largo, enquanto o largo vai atravessando os corpos

 

O que faz deste lugar-corpo a sua especificidade ?

E qual é a sua especificidade ?

 

Parece-me cada vez mais claro no corpo que este largo-aldeia acolhe e convida ao estar que vai ficando, ao estar que se vai plantando, ao mesmo tempo que abre um espaço para o movimento, para a dança, para o outro. A questão da multitude de corpos, culturas, práticas, presenças, movimentos, salta-me ali à vista de forma muito evidente. Onde salta mais à vista para ti ?

 

Tem sido importante focar e desfocar.

Muitas vezes não vejo mesmo nada quando lá estou. O largo ofusca-me.

Muitas vezes percebo que é preciso abrir o ouvir o que se vai criando e emergindo sem deixar de ouvir o que é para ouvir, sem comunicar.

 

O largo convida-me a ir, e a ficar. Para convidar a dança tenho mesmo que escolher e deixar o corpo ir no movimento da coragem que abre para a dança. Sempre sinto que a prontidão para o dançar ali vem acompanhada de muito respeito e despeito. Talvez porque este largo acolhe, recolhe, acompanha e vê, sem forçosamente fazer disso um espectáculo, talvez porque muitas daqueles presenças africanas ecoam em mim a possibilidade de ser o que for, sentindo muito claramente que não há exclusão, nem integração, nem inclusão, mas antes um poder estar entre a tensão e a leveza fluida que se forma entre as diferentes formas, a dançar, sentar, trocar, estar, vender, beber, apanhar sol, falar, aproximandar, …

 

Têm aparecido e sendo convidados para afinar, trabalhando junto com a Mariana e com o Gonçalo, para já, três momentos : o chegar ao largo vindo da rua pendurada lá de cima que continua continuando ou por intermitência, até ao desaguar, chegar chegar chegar caminhar atravessar viajar pelo largo fora ; o estar ficar numa quietude que é de pé ou sentada, e que parece irradiar e deixar ver o largo na sua largueza, com todas as suas presenças, movimentos, matérias, corpo que deixa ver corpos ; o dançar perto da oliveira que parece querer ser ouvido no gesto sem fim.

 

Ontem e nesses dias têm surgido perguntas no corpo…

Atravessar ? Viajar ?

Que andares são esses ? De que migrações ?

Como é estar lá e ver e sentir quem chega ?

Como é chegar e ver e sentir quem já lá está ?

E se eu vir desde o lugar do outro ?

De que vai falar o Boaventura Sousa Santos ali ?

 

Fechei os olhos ontem quando estava sentada mesmo colada ali a muro, banco, pessoas, e apareciam-me linhas cruzadas, os meus braços a atravessarem a linha mediana do corpo, tunga tunga, tunga, enquanto estava quieta. Vi as ancas a subir e descer ora uma ora outra, vi o corpo a dobrar no escorregar das cabeças do fémero, para a frente e para trás, como quando experiencio o corpo do meio a partir do corpo da frente.

 

Ontem caminhando, o Gonçalo diz que viu o viajar e o atravessar junto.

Viu também o corpo a deixar rasto e não deixar

O corpo a trazer à tona diagonais no espaço

E a força e lindeza do corpo a dançar perto da árvore perto das pessoas que passam a dois centímetros da dança, continuando seu caminho ou poiso, mesmo distraidamente junto

 

Estar ?

Acontecer ?

Ocupação ?

Território ?

Colonizar ?

Permitir ?

Enraizar ?

Espalhar ?

Muitar ?

Individuar ?

 

Na dança gestos…Queixo saído escorregar nas espirais entre chão e céu osso fluido medula sangue ritmo a bater corpo a ser sugado pelo entre pernas inclinar pernas para cada lado andar para trás com os rins as mãos muito ecoantes afastar aproximar o meu corpo é atraído pela pulsação da árvore das presenças que nem estavam lá hoje do chão das pessoas pela pulsação do movimento a mover-me

 

Nos caminhares…Mariana disse no outro dia que era muito diferente quando estava a ouvir-me a caminhar ou se fazia escolhas de caminhares de todo esse tempo a migrar pelo mundo e áfrica. Tem que ficar mais tempos, mais na dança, mais no ficar, mais no caminhar…o largo vai-me trazendo pudor e despudor nisso. Ontem os orgão saltaram-me da percepção, e meu sistema entérico apitou.

 

Nos ficares….aparecem zonas de confluência no corpo, no espaço, um pulsação muito forte, o respirar da célula, o ser eu ser outros na invisibilidade do movimento. Porque não é sobre a cor da pele ainda que ela me aqueça o sangue porque traz sol e terra, ou não !

 

Vestido laranja

Chegar de mala ?

Chegar com quem vem ?

Quando aparecem as cadeiras de tamanhos diferentes para a conversa com o Boaventura Sousa Santos ? Este trânsito também quero ouvi-lo na dança desde já.

Como se vai anunciar esta dança  da dança e da conversa ? O que vai falar o Perniolla ?

 

Que corpos e formas de estar são essass que realçam presença força vida latejar na quietude do estar mesmo ali no potencial do corpo vivo ?

 

No outro dia fomos chegando com a Mariana e o Gonçalo viajando por duas ruas pequenas à volta, convidando o largo no não largo. Lá apareceu Lisboa na sua infinita forma de surpreender com recantos mistérios escondidos mas de braços abertos

 

Ontem chegando no largo já ouvindo a dança o chegar era mesmo um convite, talvez o da rua a descer e a dar balanço no corpo, mas ainda assim o largo a chamar pelo corpo e o corpo a chamar pelo largo, encontro que ecoou no meu coração. Foi continuando enquanto ela foi caminhando até que algum lugar a parou na quietude.

Merci

Sara

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