vestida para gravar

acordei ainda de noite, tinha sono, à medida que ia tecendo o que este organismo pedras 13 me pede, o coração ia-se comprimindo. ainda agora já mais noite sinto no peito o lugar onde o coração se apertou tanto. cada dia começo azul-mar e à medida que percorro o acontecer tão exigente do pedras vou-me tornando vermelho sangue. hoje o coração pediu-me suavidade, pediu-me que a guerra fosse paz——talvez se eu não tivesse escolhido ver não visse tanto—mas escolhi, e a vida que percorro, o corpo que vou sendo, jorra essa escolha turbulenta que não me deixa fingir que não vejo. vejo o sofrimento, vejo a falsidade, vejo a fragilidade de ser humana, vejo a força de amar, vejo a leviandade, vejo a injustiça, vejo a confiança, vejo a arte, vejo o “mundo da arte”, vejo a falta de rigor, vejo pensamento, vejo dança, vejo a força do amor, vejo caminhar sem saber, vejo coragem, vejo ternura, vejo alegria, vejo a vontade de pertencer, vejo a mentira, vejo o amor da força, da força forte e da força fraca—-pois vejo—e enquanto vejo as paisagens mais agrestes parece que me cresce uma barba debaixo da pele do queixo. pois, escolhi ver e continuo a escolher cada momento. barbuda ou não.

a intensidade de acontecer-ser acontecido-fazer acontecer parece-me mais violenta do que a minha pequenez pode—e enquanto atravesso mesmo por dentro deste turbilhão imenso dou comigo-connosco a cantar gravando o programa de rádio do pedras13.

cada uma um com um instrumento inventado ali, uma fita adesiva, uma girafa de brinquedo, um candeeiro partido.

as vozes à solta, de peito aberto à ventania, as risotas, a mariana de chapéu de abatjour, e o microfone ali ouvindo este comboio de vozeamentos, o coração a desapertar, e logo a seguir, na mesma ondulação saimos pelo corredor fora cantando, o programa lá atrás e nós cantando para nada com a fita adesiva e mais a girafa de brinquedo e mais o candeeiro partido, e a canção a escrever-se no ar para nada.

a canção a escrever-se no ar para nada, para nada! a canção a escrever-se no ar fazendo-se música, aconchego, bálsamo, abraço, beijo, pelo corredor fora e o programa lá atrás na sala e a canção  a escrever-se no ar para nada. a canção a fazer-se canção para nada, fazendo-se canção. para nada.

eu escolhi ver, e continuo escolhendo em cada momento. é duro, é exigente, é muito-muito e às vezes é muito-demais, mas está mesmo a acontecer.

o acontecimento está mesmo a acontecer em liberdade. o coração pode apertar às vezes mas o peito está aberto ao sol, ao vento, ao sal, o peito é selvagem e não tem como alguma vez controlar esta liberdade.

para controlar é preciso reduzir e o corpo é irredutível.

sofia

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