Ontem a revoada estava mesmo maluca…

Não tinha eira nem beira, nem pé nem cabeça, era um bicho louco a rastejar pelo largo da achada, a aumentar e diminuir, apertar e a dispersar… não havia palavra de ordem que se segurasse, nenhuma frase de contenção ou dissolução… não era preciso dizer nada.

O Augusto, que se manteve em cima do muro a observar a movimentação do enxame dentro do buraco, disse-me que sentiu que não podia ficar ali num lugar nem dentro nem fora, e precisou saltar do muro… é que com os olhos a olhar de longe não se entendia o alvoroço e o caminhar daquele organismo, mas de dentro, onde o observar caminha lado a lado com o estar na dança, se fazia muito evidente como cada um ia entrando nos passos que permitiam o avançar do que lá acontecia. Nada parecia ter fim, e ninguém precisava preocupar-se em construir uma narrativa que induzisse à participação inclusiva, era no enquanto que os corpos apanhavam o ritmo da  valsa… enquanto uns descobriam lugares para colar fotos na porta, outros recortavam papéis, e na parede do fundo alguém tirava fotos, na parede lateral ela falava à ele como poderia ser feito o desenho, e era piscar os olhos e as pessoas todas mexiam-se, deslocavam-se e já estavam em lugares trocados, quem escutava não se esquecia que podia falar, quem pintava nunca deixava de trocar o pincel pelo regador e regava as plantas, o Mário que as tantas desenhava com o Pedro num papel gigante em cima do muro, via as coisas num grande diferencial do que viu o Augusto lá do alto, sentia-se tão pertinente no que fazia que de quando em quando gritava: “eu estou aqui… eu estou aqui a desenhar…”,

o que sinto é que abria-se um universo infinito em qualquer lugar que eu fosse, nada que se fazia ali era para cumprir ou preencher uma acção, a presença não se esvaziava no fazer do que se fazia, antes abria-se em continuidade, e por onde fomos e o percurso que tivemos não se repetirá pois não foi planejado, o que cultivamos ali é mesmo o não fechar das possibilidades, não parar nas formas que aparecem, não desenhar o desenho antes do gesto de desenhar e nem por isso deixar de desejar e despertar curiosidades e desacordos.

 

Lyncoln

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