começar

escrevo na quarta feira dia 22: isto das vindas ao centro de dia está em grande revolução. como apurar a pertinência de estar aqui “para nada”rodeado de intervenções espectaculares de gentrificação? aburguesamento das cidades, desumanização das gentes. com tanta actividade “animada” com os mais velhos eles andam num corrupio e o refugio nas telenovelas daqueles que não querem ser animados, aumenta.

este trabalho começa sempre na rua. é da rua.do espaço de circulação aberta onde qualquer encontra qualquer sem marcar horários…mas este tipo de instituições onde se ajuntam determinadas categorias populacionais reforçam mesmo a pergunta “onde cada umaum pode continuar a ser quem vai sendo?”

sempre podemos não voltar ao centro de dia. podemos tornar-nos muito mais invisíveis e continuar caminho só por dentro das casas de quem vive só. mas se for esse o exercício que não seja em colapso, que não seja porque fujo,que não seja porque não, que não seja em boicote—quero atravessar atravessando, por dentro da onda.

é assim que entro-entramos hoje no centro. de coração aberto para largar…enquanto não fujo-fujimos dos laços afetivos que por aqui estão tecidos.

lá está a maldita novela aos gritos, a sala onde se agrupam os que são mais solicitados para as “actividades” está vazia porque foram para outra actividade—cada umaum de nós ouvindo em cada passo como estar em cada passo…o senhor alexandre num cantinho como uma ostra. detenho-me aqui com os ouvidos a rasgar das falas idiotas que a telenovela insiste em trazer, deixo poisar as minhas mãos nos dedos deformados, na pele macia.

entro na cozinha e mergulho na tagarelice a cortar maçãs—abre-se uma brecha—desço ao espaço onde ficam resguardados os ainda menos móveis e sento-me conversando, antónia chora baixinho, sento-me no chão, escuto as lágrimas, deixo aparecer uma canção, quase em silêncio—abre-se uma brecha—-subo ao quintal e a brecha faz-se janela e porta  e vemo-nos atravessando para uma dimensão onde as possibilidades se esticam e espreguiçam, onde começar está à mostra.

uma forma de estar que não é do universo da “actividade”, que não traz esse peso ao “público alvo” que se vê atingido fatalmente pela soberba intervencionista e colonizadora de tanta gente que vem “por bem”.

aqui, neste universo que não reivindica um determinado território, tudo é possível, mesmo—nada de especial, apenas uma tarde de coração desapertado, de momentos de silêncio, de danças absurdas, uma tarde de estarmos-juntos mais-que-um sem impor um ritmo comum, uma prática única, ouvindo cada movimento em si próprio e saboreando o entretecimento que hoje borda o dia.

sofia-viajante

 

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