3000 camas à espera de cliente à custa do desalojamento de quem cá mora

A Baixa de Lisboa está em crise de identidade: Condomínio fechado ou Hotel de Charme?

Em conversa com o António Manuel, presidente da Junta de São Nicolau, estive mais uma vez às voltas com este filme de terror que o quarteirão do ex-convento de Corpus Christi vive hoje.

Começámos por ler as notas para a entrevista que deu ao Público e que ainda não saiu cá fora:

“O que presidiu ao Plano de Pormenor e Salvaguarda da Baixa foi a reabilitação do seu edificado e a regeneração da sua actividade económica e habitacional, não foi transformá-la num condomínio fechado  de hotéis de charme ligados a fundos imobiliários nacionais e estrangeiros que num verdadeiro veni-vidi-vici estão a destruir o tecido económico e social da Baixa.

Tinha razão quando em Dezembro de 2010 propus se condicionasse a aprovação do plano à reabilitação de dois quarteirões-modelo, uma espécie de frente de reabilitação alargada que servisse de exemplo para toda a área do Plano. Nomeadamente para se cumprir o equilíbrio de usos estabelecido no regulamento (1/3para comécio-lojas, 1/3, para serviços1/3 para a habitação) mas tal nunca aconteceu. Teria sido preferível continuar a intervenção de Santana Lopes que reabilitou uma rua de uma ponta a outra (Rua da Madalena), alargando essa estratégia a outras ruas da Baixa, ou a de João Soares relativamente ao Rossio, ou a de Abecassiz  com a recuperação da área ardida do Chiado.

Temos hoje numa Baixa com cerca de 80 hotéis licenciados à volta de 30 para ser licenciados ou perto de 130 se tivermos em consideração as colinas do Chiado e de Alfama-Castelo.

São ao todo 3000 camas à custa do desalojamento de moradores e do desaparecimento de lojas históricas ligadas ao imaginário da Baixa. Veja-se a propósito o que se passou com o desaparecimento do último correeiro, em 2008,na rua dos Correeiros para dar lugar a um Hotel de charme de um fundo imobiliário espanhol, o que se passou recentemente na praça da Figueira com outro Hotel de charme e o que se está a passar com outro Hotel de charme para um quarteirão inteiro que é o Corpus Christi. Esta reabilitação sem alma e sem rosto não está a respeitar nema filosofia nem os documentos estratégicos de referência do Plano.

Podemos dizer que é uma espécie de inconstitucionalidade relativamente ao Plano de Salvaguarda aprovado em Dezembro de 2010.

Em 2010 a Baixa batia no fundo e por isso fez-se o Plano agora é atirada aos fundos imobiliários. Se não se mudar de caminho temo que a Baixa se perca irremediavelmente porque contra esta febre hoteleira não há volta a dar nem plano que resista…!”

E a conversa continuou…com a Regina do café 100 Artes ao lado do cem têm estado a fazer um levantamento fotográfico das lojas que este licenciamento vai tirar daqui. Uma das pessoas desalojadas nasceu aqui e aqui vive há 70 e muitos anos, é a pessoa mais antiga da Baixa.

O António está muito espantado com o tipo de licenciamento que foi feito, é que já no século XVIII o próprio e “terrível” Marquês de Pombal teve especial respeito por este lugar. O convento Corpus Christi é o único edifício da Baixa que está localizado onde estava antes de ser destruído pelo terramoto. A igreja tem uma planta mais ou menos circular e o que foi feito foi uma adaptação do resto do corpo do edifício à quadrícula do quarteirão e já nessa altura o Marquês transformou esse edifício em 3 lotes autónomos e independentes e com entradas independentes, a igreja, lojas e oficinas e habitação.

Nem ele fez a atrocidade que se está a fazer que, segundo o António, não respeita o Plano e é assim inconstitucional.

“Se a Câmara fizer este licenciamento, da maneira que está a ser feito, para um uso único, um Hotel, quem vai poder dar a volta a isto? e a seguir ao quarteirão dos fanqueiros vai o quarteirão da Suiça”

Silêncio.

“A adega dos Lombinhos faria 100 anos agora em 2015, a loja do Senhor Ramos é um caso emblemático, é uma loja que constitui o ADN da Baixa”

As obras que não param por esta rua entretanto vão fazendo estragos terríveis, com a poeira a estragar os materiais, com os acessos entupidos… e até era para ser construída uma residência assistida na rua do Cruxcfixo para as pessoas que tivessem que sair de suas casas para reabilitar os edifícos mas isso nunca avançou.

“A única forma de travar isto está nas mãos da Câmara. A Câmara não pode licenciar isto, e se licenciar teria que garantir as lojas e a habitação.”diz ele…e digo eu…

E parece que este prédio aqui ao lado do cem também vai ser um hotel, um dos tais 30 hotéis à espera de licença………..

É tal processo de gentrificação….

sofia

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