boa noite

quando eu era criança tinha um livro com profissões e às tantas uma falava dos bombeiros e introduzia palavreado que eu nunca tinha ouvido: “a escada magirus”e a “multidão basbaque”

gosto muito dos dois conjuntos de palavras.

o segundo tem sido muito oportuno e arranja permanentemente forma de passear pelo meu sentir.

não sei de que me serviria neste momento a escada magirus mas até pode ser que lá se possa viver, à falta de um tecto, à falta da minha caminha, à falta de dinheiro para pagar as contas, talvez possamos começar a habitar lugares diversos, até escadas magirus.

basbaque é que não posso deixar de estar.

como é que as pessoas vão poder pagar os aumentos brutais de rendas se lhes cortam nas pensões?se um dos habitantes do agregado familiar tiver acima de 60% de invalidez já é uma ajuda para contrapor junto ao senhorio…acima de 60%?? então e se for 100%? as pessoas mais jovens ou estão na escola(e aí têm que contar com as ajudas desses tais mais velhos), ou estão sem emprego(e lá contam com as ajudas dos mais velhos outra vez)…

o senhor das madeiras aqui da rua dos douradores, um dos que depois de uma vida inteira de trabalho vai para a rua daqui a uns meses sem possibilidades nenhumas de refazer a sua vida, estava indignado, basbaque, com a condução da notícia que passou nas televisões sobre esta situação de um quarteirão inteiro da baixa que vai ao ar…

é que andaram a entrevistar toda a gente e depois parece que estão a gozar connosco. não aparece nada do que dissemos e ainda distorcem as coisas…

foi mau foi, eu tive o desprazer de ver essa notícia porque a ana me alertou a ligar a tv. tão bem fechadinha que ela estava…

a multidão está basbaque!

o andré dizia-me há bocado que amanhã vai às aulas mas não sabe fazer o quê, os professores andam nervosos, só se ouve falar em mais cortes e não se desenha nenhum lugar de pensar-junto, de discutir, de incluir as pessoas, os alunos-professores-educadores-varredores…na conversa!

educação-habitação-poesia-alimentação-imaginação-arte-humanidade

as abóboras vão ter que abrir janelas por entre os muros

espaço para respirar

se calhar devíamos ir dormir nas escadinhas do parlamento, como se estivéssemos em beliches!

líamos uma história, bebíamos um chá e deixávamos a noite lamber os absurdos do dia

era uma vez uma pessoa muito pequenina, tão mínima como um grão de pó. todos os dias vivia a sua mini-vida com a alegria dos grãos de pó. se estava sol dançava no ar cintilando, se estava chuva agarrava-se à terra ou viajava nos braços de algum rio. conhecia outras pessoas pequeninas e também conhecia as grandes, mas essas eram muito aborrecidas. nunca riam sem ser a fingir.também nunca choravam sem ser a fingir, também não liam,não dançavam, não amavam, não ouviam…só punham o pé onde já houvesse caminho, de preferência até iam destruindo o caminho que pisavam.

a pessoa muito pequenina voava muitas vezes para o alto de um lugar ou para o baixo de um lugar e daí via de longe como as outras pessoas grãos de pó se faziam nuvens ou despareciam no vento enquanto que as grandes só se faziam pequenas

bons sonhos

sofia

 

 

 

 

 

 

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