Em lisboa, às 8:30 da manhã

Em Lisboa, às 8:30 da manhã

Vi um homem. Estava com uma criança ao pé. Parecia que a criança e o homem não tinham nada em comum senão os sinais de que deveriam ter algo em comum. Ela  estava ao pé dele sem mais ninguém. O Homem parecia não o estranhar ali. Mas era claro que não pertenciam um ao outro, a não ser por conveniência. O homem estava sozinho, desse sozinho que corta as ligações com qualquer percepção do entorno. Apesar de estar sentado à mesa de um café, com um café na mesa, tinha o olhar e as distâncias de alguém que não tem para o que voltar, de quem se relaciona só consigo próprio e as coisas que trás consigo (uma mochila preta, nem nova nem velha). Uma mulher passa por ali e leva a criança. Afinal ela não estava com ele!  A seguir aparece o som de louça a partir. Um som quem me ressoa num lugar específico que me fala sobre irreversibilidade – o sinal de que a chávena já não será a mesma. Olho para o homem que vem trazendo a chávena partida sobre o pires. Fico a pensar se ele não a teria partido de propósito… qualquer coisa na sua desafectação para com a chávena  igual à desafectação que tinha  para com a criança me faz pensar que ele teria uma responsabilidade sobre aquilo – uma responsabilidade negativa, de quem faz acontecer para se poder desligar do acontecimento. A senhora do café diz qualquer coisa como: “Outra vez? não ganho para a loiça que me partes!” Penso outra vez que ele a deve ter partido de propósito. O homem sai e o seu passo incerto que não se relaciona com o chão reforça-me a ideia de que não tem para o que voltar. Fala agora para alguém que não vejo, atrás dos carros. O seu corpo compõe-se na direcção do outro como se lhe fosse pedir dinheiro,  uma postura automática que lhe deve estar agarrada à fala. Afinal era a mulher e a criança. Afinal são mesmo uma família (família?). Vejo-os irem-se embora, os três. A mulher sim, tinha a ver com a criança, numa mudez que as torna caladas uma para a outra. Mais ou menos a mesma coisa que o homem tinha a ver com o saco.

margarida

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