a bio-política ao rubro

a velocidade a que somos enquadrados, privados das nossas subjectividades e postos a trabalhar para a engorda da máquina de poder vigente é impressionante! esse “outro corpo”que tanto danço, esse corpo que atravessa, que não se cansa de se criar continuamente, precisa mesmo de uma afinação permanente. caminhar no desconhecido implica mesmo confiar no não saber mas não se pode confundir com não querer ver….e esse “querer” às vezes também não é evidente. é uma escuta permanente que me exige estar sempre a reconhecer alterações na forma e a ginasticar a prática de ver-ouvir!

estamos no centro de dia do largo da rosa há anos, sempre ligando desde a rua, desde o um a um, acompanhámos vidas e mortes nos seus mais subtis tremores .criámos canções com letras e músicas totalmente inventadas nestes encontros com as pessoas mais velhas, abrimos abraços, confissões, danças, desembrulhamentos, mas acima de tudo abrimos a disponibilidade de ouvir e ser ouvido, de estar com, de não colapsar na terrível moldura que imobiliza os mais velhos enquanto inúteis empecilhos.

agora, enquanto este sistema económico-político destrói a consideração de ser humano, desaloja, seca, vampiriza, enquanto nos vemos como moscas à chuva perdidos na miséria de não ter tempo de recuperar antes de levar com outro murro—- proliferam as animações, os entretenimentos, as actividades destinadas aos” mais carenciados”.

é absurdo! as pessoas a morrer de isolamento e de falta de consideração e as funcionárias do centro de dia aflitas com a programação impositiva de passeios de barco e festas com o santana lopes.

e cada  gesto que eu faça, se eu não estiver rigorosamente atenta, é enquadrado nessa força “animada” e alianante tão tóxica como as drogas mais tóxicas. devagarinho, a biopolítica impregna-se e corrói, e cada toque de amor pode ser “arrumado” no lugar da “actividade”.

ARTE! ARTISTAS! saiam do marasmo e vejam que estes poderosos estão a investir em usar a poesia como uma arma de engrossamento do poder político instalado.

quanto não terei eu colaborado no enriquecimento destas ideias brilhantes que invadem a vida das “comunidades desfavorecidas”?

ai ai ai

não vou desistir, continuo caminhando! é urgente ver sem medo, sem paralisia, que o lobo vem vestido das mais diversas formas!

afinemos! rigorosamente!

sofia

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