histórias da rota de 3 de maio.

no rio encontrámo-nos entre os que vinham do mercado e os que vinham da praça do comércio. uns caminhando pelos rastos de abril de 74 outros caminhando pelos afectos de hoje. ajuntámo-nos nesta nova praia de lisboa para seguir pela rua do arsenal para onde ecoa ainda a pide e continuar caminho com pausa no camões para nova bifurcação, uns para o largo do carmo enquanto outros descem à cruz dos poiais, até nos ajuntarmos de novo na aula de filosofia na mercearia da travessa do cotovelo.

na rota passada exercitámos o ir-ficando, nesta uma espécie  de crochet entre abrir-entrelaçar e abrir-entrelaçar.

no mercado a alice está triste. alguém da banca do meio está muito doente e “ainda não me estreei” …ela bem insiste com os turistas que são alhos portugueses mas ainda não vendeu nada. nesta mesma noite o governo anuncia mais austeridade. como diz ana luisa “vamos saber pela televisão mais medidas de assalto”.

está no ar esta incapacidade de criar uma ação que dê outro rumo à queda vertiginosa.

ainda há pouco quando lia o “liso e o estriado” frente à crinabel, me vi várias vezes levantando a cabeça do livro perplexa com o desnorte dos corpos na rua da boavista.

entretanto os abraços,os risos, as danças, do tomás, da carolina, da andreia, do filipe, do jp…o carinho e alegria destas pessoas que vivem num outro universo onde são tantas vezes privados de escolhas próprias, traz-me a sensação de massajem,de aconchego. eles é que são os infelizes, são eles que nós os”eficientes” escondemos das ruas e no entanto olha só o que a nossa “eficiência” tem feito acontecer! de tal forma nos tornámos dependentes do “ter”, do cumprimento de um trabalho que alimenta a acumulação. enlouquecemos cada dia com a privação do ter, desviando a atenção para um jogo de direitos e deveres afastado do “ser”, afastado de criar.

pauso na rua antónio maria cardoso.

no outro dia a luz dizia que as mulheres com quem trabalha no alentejo começaram aos gritos “matem os velhos,não os deixem sofrer!”…sinto o peso destes edifícios de cara lavada mas com um entrar angustiante.

o que me choca neste momento é a mentira,o desplante com que se diz publicamente  que estamos a enfrentar a crise através destas medidas que nos vão matando.  o estado de salazar e marcelo caetano era criminoso sim mas e este? o silêncio dos manifestantes no 1 de maio, essa fina modulação entre o corpo desistente, mole e macilento que tantas vezes cruzamos na rua e esse corpo resistente que não encontra o gesto apurado na relação com a transição.

quero exercitar a simultaneidade de tempos, ler o agora não pode reduzir-se à tradução do que julgo ver.

a transição tem que exercitar o enquanto.

como é que se desenha uma lei que permite despejar as pessoas de suas casas enquanto se lhes corta nas pensões? como é possível acompanhar o crescimento dos mais novos se os adultos se confrontam com a destruição de tudo aquilo para que viveram a sua vida?

passamos frente ao teatro são luis. não somos um grupo homogéneo mas neste momento até estamos bastante aconchegados uns aos outros. curiosamente duas pessoas do teatro atravessam esta nuvem de vidas com fluidez, não houve formação de parede de corpos…mmmmm

largo do camões. converso com um amigo que se dedica ao restauro mas que agora está a fazer um curso para trabalho com a comunidade porque não tem emprego. pois é…à medida que se destrói a dignidade da vida dos cidadãos,que se criam cenários falsos de lugares idílicos coreografando até ao milímetro a vida-sobrevida de cada umaum, também prolifera a faixa dos intermediários que ganham o seu dinheiro criando actividades para alegrar os miseráveis.

parece que vamos de patins pela vida fora,sem entrar.

estou aqui no largo do camões enquanto estou lá em baixo no mercado, enquanto danço na rua dos fanqueiros ou no intendente.

a isabelinha da cruz dos poiais vai de  manhã cedo lavar os cantos do parlamento. ainda passou aqui primeiro na taberna onde o luis bebeu o seu copo de vinho para se fazer à estrada rumo à matinha. trouxemos-lhe a pasta e um caderno como tinhamos prometido.

dança comigo uma dança encantadora, silenciosa, sintonia de corpos. deixa a pasta na taberna e vem connosco à aula de filosofia.sábado está com lyncoln e os miudos-graúdos no buracodo 9-9A e hoje à tarde vem ver o filme do alex ao são jorge “os quiero,os respeto,os necesito” às voltas com o 15m pela praça do sol e pelas escoações que se continuaram em caminhadas entre terras.

o alex ainda está no méxico com os zapatistas. a minha mãe não move nem um dedo mas muitas vezes converso com ela, fazendo acontecer viagens, também ao méxico.

criar outras possibilidades entre o sonho e a realidade, entre o nómada e o sedentário, entre novos e velhos, académicos e artesãos, tristes e alegres.

não estão claros os gestos adequados para caminhar nesta transição de universos mas parece-me importante ir escutando onde essas inclarezas são desajustes e onde são mesmo as formas que o gesto agora é.

sofia

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One comment

  1. olhando para as forças destruidoras parece que o ruído impossibilita de ver as evidências que é estarmos vivos juntos no acontecermos, seguindo modelos geométricos que apelam à sua existência como única forma de existir, ausentes de vida. porém sinto que se vai revelando o que já há muito se revela, sobre a potência de vivermos lado a lado, atravessando e sermos atravessados pela vida. respirar no enquanto, sem ter de suster a respiração para atravessar com a mesma forma. trabalho árduo é este de estar vivo, atravessando-nos pela força de vida que não se calará, deformadora das coisas vistas. os espaços se vão criando, mesmo que por vezes tortos, como as sementes que se vão entortando – endireitando, confio neles, mesmo os não reconhecendo, apercebo-me da sua intensidade viva, com esses espaços posso ser.

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