Energumeneidade

Que coisa seja um energúmeno? Quem não se colocou jamais esta excruciante dúvida ontológica? Preencherei os requisitos para o ser? (prouvera a Deus que não! e porém…) Quem decide? Quem qualifica? Quem JULGA? Serei um energúmeno para mim? E sendo um energúmeno para mim próprio, que serei eu para os outros? (eles que são o Inferno, sentia o Sartre, autoridade inexpugnável para qualquer energúmeno, consciente ou presciente).
Várias abordagens seriam legítimas, face ao gabarito do qualificativo, e mormente da condição: a confessional invoca o energúmeno catecúmeno. Professo, no entanto, na Fé, ver-se-á redimido. À face do Todo Poderoso, a energumeneidade é derretida pelo Mistério do Sacramento. O herege, o blasfemo, jamais se alcandorará a tais cumes de energumeneidade se, nem que seja pelo relance de um segundo, no seu coração energúmeno, se arrepender sentida e sofridamente.
Poderia acostar o penoso dilema numa perspectiva Kantiana: a energumeneidade como construção de uma identidade. Abstenho-me de enunciar a visão cartesiana por anacrónica, dilatória. Ou a Freudiana, por despicienda, senão mesmo escatológica – o leitor entenderá, decerto – ou a Kirkegardiana, a energuneidade como uma transcendência, como um humanismo. A derradeira apostrofa o nume.
Olho derredor tentando discernir um vislumbre, ainda que singelo, de absolvição, mas apenas apercebo grotescas e lívidas faces acusatórias. Devo resignar-me a tal estatuto? Fritz Lang imortalizou-nos no seu visionário “Metropolis”. (não resisto à erudição do pastiche, serei irrecuperável?).
Não, não e não! Há esperança! Só posso ser um energúmeno aos olhos dos outros, é imprescindível o julgamento para que assim seja. E eu, ou qualquer outro energúmeno, não somos miradas efémeras de pupilas ociosas, não somos hologramas.
E o AMOR nem 50 anos de Declarações de IRS erradicará do coração que sente!!!
Ou, como colocou um energúmeno imortal, perante os seus regimentos em parada no Vale dos Reis: “Do cimo desta pirâmide (Luxor) 25 séculos de solidão vos contemplam”!
Não, não creio que sejas um energúmeno; ninguém é… Ainda estamos a tempo, nem tudo se perdeu… Crê! Seremos dois… É um princípio…

João Lemos

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