entre os roteiros caminhantes e os ficadores lisboa-corpo tece a sua renda

a rota de sexta feira passada sugeriu uma distinção entre quem rotava caminhando e quem rotava ficando, parece que às vezes quem vai se esquece de ficar, e quem fica se esquece de ir. interessa-me estar sempre afinando essas modulações. eu fiz-me roteiro caminhante e foi muito vibrante encontrar o ficar de alguns de nós que estavam nos lugares quando a rota passava.
começamos onde largámos a festa na noite anterior, lá no café do joão na rua do benformoso.
o helder, que o ano passado conhecemos no centro de dia e que agora vai muito deitar-se na sala branca do cem para se por em paz com a coluna por entre os deslizes alcoólicos por onde mergulha durante o dia e durante a noite, ficou de nos encontrar logo à saída mas só se juntou à rota já na bica.
o luiz bué, do albergue da cruz dos poiais, é que vinha da matinha e veio dar connosco quando passávamos na loja das lãs, a prestar vigília ao quarteirão que se vai destruir para dar lugar a um hotel charmoso.
sinto esse empurrão de princípio de viagem,uma espécie de piscar de olho entre quem toma o pequeno almoço ou se entrega a um mata-bicho,
no espaço de repouso entre a manhã e a própria manhã.
tenho visto muito estes ajuntamentos e desajuntamentos de pessoas vindas de diversos lugares, confluindo num ponto, trocando palavras, apertos e olhares e voltando a abrir para continuar o carrocel das suas vidas, sempre ligeiramente embebidas do encontro umas com as outras.
assim foi, a caminhada continua pela rua da mouraria e o senhor do mercadinho diz que vai escrever para a próxima fanzine, curioso que talvez o nosso energúmeno ali dos passos do concelho também escreva para a fanzine energumenez, disse-nos quando a rota lá passou que ía ler becket e outros autores para garantir que faz muitas citações.
na rua do capelão somos varridos à mangueirada, ofereço uma dança na peixaria e aprendo sobre os pós de maio que o senhor joaquim diz curarem-lhe o mal das mãos que não têm sangue no inverno.
dona piedade fica feliz de nos ver e nós de a apertar tanto. está lá a senhora da misericórdia exactamente 7m. é obra. não sei o que ela pode fazer em 7m….o banho não é com certeza nem nada que se pareça. enchemos um alguidar de água morna e piedade mergulha os pés onde os ossos se engalfinham todos a mudar de lugar uns para cima dos outros.
o beco da amendoeira recebe-nos agora de braços abertos, ainda há pouco a da peixaria nos prometeu uma sardinhada aqui à da amália. lá desce a querida amália que hoje não pode rotar que está enrolada nas linhas e nas agulhas, e a pipoca a saltar, a saltar.
a rota vai corridinha, sem muito tempo de ficação mas vai-se vendo a tecitura da cidade-corpo. ainda agora descendo as escadinhas de são cristovão vindos da achada vemos a arminda da rua do capelão e o zé tipógrafo do largo da severa mesmo aqui no poço do borratém.
uns vão de lá para cá outros de cá para lá e sempre que se deslocam trazem consigo o perfume das suas casas. a cor da bata azul distingue-se dos engravatados que cruzam a rua à hora do almoço. desaparece agora, redondo como a mulher de carrapito e olhos verdes que caminha a seu lado.
venho a conversar com o pedro e os meus olhos ainda vêem a luz ventosa da adriana e do lyncoln pendurados no muro do 9-9A enquanto eu falo com a dona juliana toda compostinha de boina azul e vestido vermelho, mostrando-me móveis de madeira lindos que estão a caminho do lixo porque a casa do outro vai ser despejada.
diz ela que dantes o chafariz da achada dava água a toda a gente, até se ligava lá a mangueira para a criançada tomar banho. depois alguém fez queixa….não sei de quê….não sei para quê….
largo de são domingos, a sane musqueba foi à mesquita, só volta daqui a pouco, também nós voltaremos daqui a pouco para conversar como o josé gaspar calceteiro.
dou a volta à praça em passo lento, gravando. não há som-paisagem que não se desdobre nesta praça onde tudo acontece, onde tudo co-existe. o sossego e a pressa, o ficar e o ir, a conversa longa e aberta e o recado corrido, o cão rasgando, o outro cão vagaroso a fazer ninho ao sol.
dá-me vontade de rir.
praça do comércio. a valentina ficou-ficando como um ponto laranja na imensidão do terreiro aberto ao rio.
hoje sinto que posso estar só ou acompanhada independentemente de ter ou não pessoas a meu lado.gosto de sentir essa liberdade.
sigo com o pedro pela ribeira das naus ao cais do sodré junto aos morangos.
ibon dança e nuno escuta.
o casal de vendedores no seu carrinho de morangos não pára de falar.imagino aos anos que ali estão e sempre a falar….de vez em quando, mas muito de vez em quando, lá ele levanta os olhos da conversa animada e apregoa a fruta, mas nem acaba a frase de cara levantada, já procura o ninho da conversa com a mulher, de baixo do chapéu de sol branco atado ao carrito para não voar.
escadinhas da bica grande e encontro a querida irene que vai de férias agora para casa de uma amiga.pensando bem amanhã tambem vou de férias para o quarto do andré.
a rota termina frente ao beco francisco andré, na rua da boavista.
a mariana lá está, ondulando na sua escrita de quem veio para ficar as 5 horas escutando o lugar. tenho uma sensação bonita no meu corpo.
os ficadores vão-se juntando aos roteiros caminhantes. o ibon conta-nos de uma senhora que sempre passa aqui na rua da boavista passando a mão pelas paredes e comendo o pó.
comendo o pó das paredes…
o vento levanta esse pó, cheira a canos podres.
lisboa.
o elétrico guincha.
flores rosadas vêm sacudindo as cabeças no braço daquela mulher.
o andré do centro de acolhimento junta-se a nós, está ainda muito tímido,não conhece muitos dos roteiros, vai conversando e aproximando-se um pouco mas acaba por ir buscar um casaco e não voltar mais. como o meu tio que foi ali comprar fósforos e nunca mais ninguém o viu.
vai devagarinho.
termina a rota mas como tudo o que vamos criando, termina mas continua a começar.
seguimos para a conversa com o josé gaspar, caminhando desde debaixo do arco encapuçado da rua augusta. aprendendo sobre ouvir as pedras, tomá-las nas mãos, ter paciência e ser rigoroso. o amor pelo que fazemos. sim, até já.
sofia
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