enquanto a rota rotou

escadinhas da bica grande frente ao 2. lá no alto aparecem e desaparecem uma parelha de rapazes ao telemóvel. estou sentada com um lado a escorrer para baixo e outro escada a cima. descendo enquanto subo. o careca está em calções e à medida que oscila o sol lambe-lhe as pernas mas ele não dá por isso.

desce a magricela nervosa. fui para lá às 7 da manhã e já era o número 22. a outra finge que ouve. entra agora um homem carregado de sacos de plástico mesmo no 2 onde me parecia não morar ninguém. atravessa o colchão encostado à esquerda, segue e desaparece ao fundo do corredor escuro junto às outras grades.

agora a escadaria tem uma espécie de bancos em ferro, ao longo dos desníveis de degraus. talvez seja um convite a sentar mas a pedra parece mais convidante.

o vidro da janela que entrevejo ali em baixo, na rua da boavista desdobra cada pessoa em duas ou três. sobe uma família. um dos miúdos olha com curiosidade para a minha escrita, o outro refugia-se nas pernas da mãe. queres fazer um desenho? estão a passear. o mais pequenino tem uns óculos parecidos com os meus. avançar-recuar. conhecer-não conhecer. curiosidade-escuta. avançar-recuar. rafael senta-se na cadeirinha que se chama antónia e completa o seu nome. rafael esteban. o pai diz que ele não sabe desenhar e sorri. um cão? um sapato? une maison? ah! uma casa tu sabes desenhar rafael.

mas já o tempo de estar ali se escoa. olha rafael eu vou colocar teu escrito junto ao meu. encontramo-nos aí outra vez, na escrita. adeus, adeus. aqui está o escrito, um beijinho da sofia rafael, vai desenhando que o desenho só aparece desenhando, confia. bom passeio por lisboa e até à próxima.

sinto-me um fole, esticando e encolhendo, deixando o ar passar nas guelras.

agora vem a velhota chorando e subindo das escadas. morreu com 50 anos. a outra consola-a mas não conhece o morto. ela continua a subida quase cambaleando e encontra o velhote pendurado no corrimão da escadaria,lá mais à frente. encurvam-se um ao outro numa saudação conhecida.

s   i   l   ê       n   c   i   o

este passa mesmo rente aos meus joelhos ostentando os seus próprios joelhos. sinto ar de marchantes por aqui. o tal orgulho bairrista. deve ensaiar na marcha da bica. provavelmente até já me viu correndo de um lado ao outro do pavilhão quando coreografei marchas. é uma presença explosiva, muito rasgante. com todo o respeito por cada amizade que fiz nesse encontro marchante, não tenho saudades de coreografar marchas. raramente senti que aquela grande força que abanava cada ensaio tivesse a possibilidade de fluir para algum lugar que não o confronto, a competição, o poder…pois por aí não quero mesmo ir.

entre uma parede e outra a roupa estendida conversa. enquanto o vento dança a roupa parecem-me paredes bailarinas, ajuntando-se e desajuntando-se. sigo pela rua da boavista e pouso-pauso junto ao arco 130-beco francisco andré.

há pouco, no largo de santo antoninho, a margarida dizia que só em lisboa tinha visto estas esplanadas tão inclinadas que se torna improvável poder comer sopa num prato. comer sopa é já bebê-la que ela vai escorrendo inclinação fora.

pois este beco também me traz essa especificidade lisboeta. garganta escura com amígdalas ao sol.

estou mesmo de costas para o centro de acolhimento mas a esta hora eles estão todos na escola. costas ternas.

que bem sentadinha que está aí ao solinho. nem poisa os sacos, diz que à noite, assim que vem o escuro, não sai à rua que tem medo dos ladrões. logo ás 6 horas já se tranca em casa. mas ó dona adélia, que adélia é um nome raro e é o dela, olhe que às 6 não é escuro agora.

mais uma vez esta sensação de corpo-harmónio, enrugando-se e esticando. continua à boca da garganta escura. ficar. ficar. ficar. viajar ficando.

passa uma senhora de saia vermelha.o cão amarelo fareja o chão e ela canta de boca fechada três notas mmmmmmm —mmmmmmmmmmmmmm—mmmm—, e repete. passa e deixa no ar cheiro de vinho. estes passeios não têm calçada, são forrados de cimento partido e gasto.

o elétrico passa com o guincho mesmo ao nível dos meus rins. a garganta beco continua misteriosa e não tenho vontade nenhuma de desvendar o mistério, só estar aqui. escutando.

entro e continuo nem cá nem lá. ao fundo uma casa rosa com trepadeiras.

não fique debaixo do arco que este prédio está a cair, diz o carteiro. pois, tanta lisboa a cair.

cabeças de cães pequenos a espreitar das varandas. uma menina ladra, o cãozito ladra, a thiane ladra. concerto de ladrações. lembro-me de ouvir deleuze falar de quanto arrepia o ladrar dos cães. este ladrar não é arrepiante, é uma história a fingir que é cão.

a mariana dança uma dança possível com a saia pregada a um ferro da varanda.

desço ao café. saboreio esta possibilidade de silêncio na rota, a escuta dos lugares. quero estar só.

sofia

 

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