9-9ª as aventuras de um buraco – ou o prédio interrompido

Aqui em Lisboa, lá na Mouraria há no Largo da Achada um prédio cortado ao meio, que de tão absurdo pouca gente o vê… já moraram pessoas lá. As portas e as janelas foram lacradas com cimento, já não abrem nem fecham, as paredes foram amputadas até um ponto onde o prédio 9 -9ª não desaparecesse nem aparecesse, não há cobertura… é difícil pra um lugar ser desvitalizado… é tão difícil que hoje, depois de anos passados, o que se passa lá é que brotam ervas daninhas dos blocos de pedra, abrindo brechas, os musgos crescem de ano para ano na cobertura do chão todo alisado e coberto de massa impermeável, corroem pouco a pouco a dureza e a frieza, o próprio terreno onde está pousado o edifício-interrompido se move em ondulações, desnivelando o que foi forçosamente alinhado…

Quantas coisas eu aprendo olhando para isso… a primeira vista é muita dureza, muita rigidez nos quadrados das paredes cobertas de camadas grossas de areia… mas por mais que se tente prender o movimento daquela casa, que se tente sobrepor com  não vida a vida que a presença daquela casa traz para o largo, há uma insistência que não pára de chegar… de vir ao encontro daquilo tudo que está a pesar em cima do 9-9ª…

É uma viagem que não tem fim, é um ir ao encontro e não deixar de ir ao encontro por mais que tudo a volta deste encontro se coloque desidratado e impermeável, a forma do 9-9ª não é parável, o 9-9ª não se conforma em ser em uma forma e já está, não deixa de ir ao encontro com as diversas deformações que lhe chegam nesse encontro, e ele continua. Na quarta-feira fui eu à creche da Encosta do Castelo trabalhar com miúdos de 1 a 2 anos, e como já nos é pulsante o encontro de quartas-feiras, quando chego lá sempre temos travessias que insistem de em não deixar de acontecer nessas quartas, uma delas é tirar os sapatos, descalsar, tão simples quanto possa ser… e a potencia deste atravessamento não se calcula por grandezas medidas e comparáveis, descalçar-se… quantas coisas acontecem neste momento do encontro, e o encontro continua, como a Lara que chorava ao ver o pé fora dos sapatos, como o Benet que não quer tirar e não tira, com a Aurora que quer trocar de pares… lembro-me do 9-9ª e penso na força em acreditar que as coisas que atravesso no encontro não impossibilitam o encontro, por mais que essas coisas sejam horrorosas, imagina tu uma prédio como se sente sendo cortado ao meio, isolado e coberto com algo que abafa o seu próprio ser-estar… continua 9-9ª… mesmo deformado já horroroso, que a força de vida é tão forte como a força da morte mas, como a Nila do 3º ano da Escola da Madalena se assusta ao ver que aTerra é minúscula comparada ao tamanho do Sol, e que o a nossa grande estrela nos exerce algo chamado gravidade, e que nós pessoas dentro do planeta somos quase nada: “vamos todos morrer” diz ela a me olhar aflita… vamos todos viver também Nila, não deixemos que a força que me mante em pé tão vibrante seja maior que a força que me joga ao chão e não me deixa mover… o Sol não prende a Terra, não a engole… viaja com ela pelo nada… dançam juntos, descobrem a cada volta como continuar esse encontro.

São aventuras…

É mover a vida…

Hoje iremos plantar sementes nos buracos do 9-9ª com os miúdos e alguns graúdos, mais abandono não cabe lá, então o convite é estar lá e aprender algo por uma tarde de sábado com esse lugar, há muito para criar onde nos pareça fechado para criação.

 

Lyn

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