CORPO AO LARGO CORPO LARGO

Este é um post largo…não é um exercício, é um convite para ler até onde for !

talvez à laia do que tem sido no meu corpo cruzar o largo de são domingos, vinda de casa, indo para o CEM, sózinha, acompanhada da minha sobrinha Madalena, do meu amor o Etienne, escutando e dançando com a Mariana, a Sofia, a Zornitza, ajuntada com os Fiadores, falando ao telefone com a minha Mãe…. tempo sem ordem cronológica, nem linearidade…para trás e para a frente, por cima, por baixo, pelo meio, corpo do meio, mesoderme…ando de olho nela desde que comecei a estar mais no Largo e Outubro !

Segue…

Nos lugares com alma e corpo de praças e largos tenho aprendido o trânsito da permanência, o corpo do outro em mim, o corpo migrante, histórias e memórias que têm mesmo a ver com a rua e o estar na rua, existir na rua

Por vezes aparece uma perna mais sedentária , outra perna mais nómada.

O Largo de São Domingos tem sido uma rota no meu corpo desde outubro.

O que aparece ali no corpo quando ele dança o estar naquele pátio?

Hoje de manhã estive no Largo com a Mariana pelas 9H30. A essa hora hoje vira mesmo espaço aberto e a convidar para dançar nesse palco. Os bancos estão com três senhores, um em cada, como se esperassem o resto do dia chegar, ou o comboio, mas esperando sem estar à espera, estando. Estão mesmo lá. Levei o vestido da dança da Praça de Montpellier, que estou a convidar a vir dançar no Largo, agora, e abrindo a chegada da Felicia finzinho de Abril e Maio, para vir dançar/tecer som comigo. A proposta foi de caminhar ouvindo esses caminhos e a ver onde o corpo vai parando, ficando, migrando. Incrível como meu corpo se pôs a traçar linhas e arredondá-las para dentro do Largo quando chegava às bordas invisíveis do largo, como se aí houvesse uma superfície macia escorregadia, uma membrana, ou fascia bem fina mas clara. Ficar plantada virada para o Rossio é como estar a sair do largo diz a Mariana. Quando me inteiro e integro, ajunto, adenso, espesso perto da árvore, parede das Ginjas ou parede do lado do muro da tolerância, mesmo ao lado da ourivesaria, é muito diferente, tem corpo dentro do largo e esse ficar é muito forte e presente. Junto da oliveira é como se o largo se visse todo e grande e amplo e aberto ao espelho no meu corpo. Fiquei dançando um pouco pela oliveira. Parece estar a nascer nesse nicho aberto a dança do largo. A Mariana diz meu corpo estava ora a erranciar, à escuta, desaparecendo, ora começando a dança…ele pode ir e afirmar para a dança mesmo, estava mesmo a pedi-las, e nos bancos estava-se mesmo a acompanhar minha presença cheia de corpos e histórias. Muito bonitos esses espectadores emancipados!! Voltou e foi aparecedo o chão pélvico que também vem da dança da praça em Montpellier, e o escorregar das ancas e da bacia, que sinto conversarem com o corpo do meio, mesodérmico desde outubro…

para trás e para a frente…

A semana passada estive dançando no Largo com a Sofia. Encontrámos nas pedras redondas que delimitam o largo do lado do teatro. Cada uma em sua pedra. Ora dancei eu, ora dançou ela. No meu corpo foi também sobre o encontro de estar a dançar ali com a Sofia. No meu corpo foi ouvir caminhos dentro daquele corpo-lugar-pátio, e ver onde ele às vezes parava e como ia aparecendo danças-gestos. Estava cheio. Fui ter com a parede junto das Ginjas onde senti uma presença forte. Encontrei-me com a árvore, a oliveira, que começou a convidar e a preparar-me para ouvir como ela vai ser de novo um estar em grupo ali, quando o sol começa a bater nos bancos. A Sofia dançou com o espaço, no espaço, pelo espaço. Eu vi-a a aparecer e desaparecer. As densidades são importantes de perceber no corp que vai dançando ali. A Sofia diz que as caminhadas se estão a apurar a dança, a ouvir/sondar o espaço, não são sobre a dança mesmo que quer nasce. Viu o meu corpo lado a lado, corpo-corpos, corpo-parede, corpo-árvore, corpo-Mousqueba. Senti nesse dia o Largo muito aberto e permeável e ouço que as caminhadas podem ser dança se já estiverem a tecer-se ali há um tempo…assim me parece que talvez tenham de ser dançandas de forma mais assertiva. Malas? Objectos? Coisas concretas materiais a transportar de um lado para o outro e a mudar de lugar ali? Não sei, mas pensei num dia em que cheguei do Largo no Pátio com a minha sacola amarela de Marraqueche e em que a sala branca do CEM era mesmo uma continuidade na viagem desde que de lá tinha vindo até voltar depois do Largo. Não parei de andar. Mais tarde sim, pude poisar a mala e continuar a dança.

Estive no Largo essa semana muitas vezes, algumas experimentando atravessar sem parar e sem olhar, outras parando apenas uns escassos minutos, outras procurando a Mousqueba, outras olhando os espaços entre as pessoas, bebendo Ginjinha, sentando, olhando da janela que é a rua de cima inclinada…um desses dias apareceu minha sobrinha que sempre vai pendurar-se na bola de pedra que é mesmo estrangeira dali. Eu estava na rua de cima com o Etienne. Ele veio e pôs-se a jogar um jogo. Eu e o Etienne de cada lado da rua, ele indo e vindo e trocando objectos entre nós, ora levava meu colar, ora trazia o chapéu dele. Muito curioso esse movimento das trocas ampliado no espaço pelo trânsito da Madalena. Lembrei também dum dia no Largo em brincámos as duas de andar lado a lado, ora uma ora outra de olhos fechados…ela levou-me para junto dos bancos enquanto eu servia de guia de olhos abertos e plantou-nos ali tão perto que nem havia distância entre as pessoas!

Estou a sentir o pensamento e as palavras a virem em errância, seja lá o que isso fôr no corpo, essa palavra que tem aparecido agora ao lado de migrar, trânsito, nomadar…

O encontro-dança no Largo de São Domingos no dia 1 de Março de 2013…

Marcámos encontro no Largo, eu e a Mariana. Para dançar e acompanhar essa dança.

Cheguei pela rua de cima do Largo um bom tempo antes. Comecei a ouvir o corpo a escorregar para a possibilidade de dançar, navegando entre essa presença que parece poder abrir as portas e criar corrente de ar, e uma presença mais fugaz ou discreta, que se deixa misturar com aquele quotidiano, nesse tarde, pelas 15H30, inundado de gente, de luz, de verticalidades e de aldeias.

Meu corpo estava indagando a forma como ali estava a sentir um misto de electricidade, ansiedade, palpitação e uma tranquilidade, calma e serenidade. Muitas vezes me aparece este lugar antes do dançar, como um ir que já não tem volta, porque não dá, nem o corpo quer, escapar aquele encontro! Inquietação linda!

Obrigada Mariana por teres chegado! Acho que já estava a começar em mim aquela dança e o teu acompanhar é precioso!

Fomos para um cantinho duma das bolas laterais do Largo, que a essa hora era atravessado por uma coluna de luz e sombra no chão. Mergulhei no que estava a palpitar em mim. Mergulhei com a cabeça e a coluna mais perto do chão, a olhar para ele, e para as minhas mãos que se juntaram, fechando de vez em quando os olhos, para não ouvir apenas a paisagem visual muito forte de gente aquela hora.

Penso e sinto que não é sobre site-specific o que se está a dançar no meu corpo.

A Mariana diz que já lá está, no meu corpo. E que há tantas histórias há tanto tempo que pedem para ser contadas, que dançar no Largo é acrescentar mais uma camada! Oiço isso e acho lindo como isso me ajuda a perceber a minha vontade de ir dançando estes encontros ao longo da vida. Qual é o de agora? O que se está a dançar no meu corpo é encontro-specific. E que tenho tentado estar atenta à forma como no meu corpo isso se vai desenhando em diferentes lugares. E que dança sedimenta agora…porque podemos ficar a pesquisar a vida toda! Mas também não é sobre produzir danças em série. Poderia!

Surgiram uma maré de questões, tão fortes que estou muito feliz daquele momento! Acordei hoje com elas. Sobre o que é a pergunta? A Mariana e o Gustavo e eu fomos conversando ali de pé depois de a dança se ter diluído em este outro momento. O Gustava veio encaminhado por uma professora do ISCTE de quem gosto muito porque ela não tem nela hierarquias.

Vou lançar algumas das perguntas…

É para dançar mesmo ali?

É para pesquisar ali?

Quais são os gestos, movimentos que são mesmo da Sara no Largo?

O que é esse corpo que vira palco com tanta gente a olhar?

É sobre integrar essa dança no Largo? Integrar a Sara no Largo?

Qual é o tempo e a cadência do ir estando no largo? Todos os dias várias horas? Uma vez por semana?

O que é esse corpo de mulher a dançar ali? O que são esses corpos de mulheres e homens ali todos os dias?

É preciso estar a dançar para ouvir o largo?

O que se quer ouvir em mim nesse largo?

Dancei durante quase uma hora. Fui ouvindo o corpo a deslizar para trás em círculos. Por vezes ele parava e ficava a deixar o corpo do largo chegar a ele. Tanta coisa a passar por mim. Senhores e senhoras parados a olhar. Não senti um olhar invasivo nem desrespeituoso. Senti curiosidade. Pergunta. Por vezes olhares intrigados sim, incomodados talvez. Mas não me chegou violência ou dureza. Vulnerabilidade sim. A de estar ali, exposta e expondo, escancarando e interferindo naquele lugar. Porquê? Mas não deixei de ouvir. De vez em quando meu corpo punha-se a dançar coisas que enquanto dançava  pensava, isto parecem gestos de dança africana! Mas enquanto os deixava mover-me ou aceitava mover-los sem que isso fosse uma vergonha, parecia que ganhavam corpo e a questão desaparecia porque dançar era mais presente. Aqueles balançares que têm aparecido, entre uma perna e outra, como se ouvisse os lados do corpo a ir e vir. Caminhadas de bacia para a frente. Caminhadas de braços a cair, de corpo escorrido. As caminhadas têm algo de forte ali, diz a Mariana. Assim como uma diagonal que levou meu corpo mais para perto do muro da tolerância, na embucadura da rua que vem do Martim Moniz. Quando me aproximei tentando ouvir o não decidir, mas indo, daquele lugar do largo com experiência de permanência, trocas, conversas, estares, lados a lados e face ao largo, olhando indiscretamente para ele, meu corpo sentiu doçura, respeito, consideração, inteireiza e delicadeza. Algumas mulheres gozaram descaradas ao ver-me dançar. Reconheço nesse despeito uma leveza que conversa no meu corpo com garra. A Mariana ouvi muito os corpos dos homens a olhar para mim, ouvi como nunca tinha visto isso ali, o machismo daquele lugar. Acho incrível esse ponto de vista, essa leitura, e o lugar do corpo que está a acompanhar a dança e que se viu a ter que ficar sentado. O que é esse corpo de mulher a dançar ali ? O largo convida a isso? Ou não é essa a pergunta? Eu não vinha com essa pergunta no meu corpo. Senti no meu corpo às vezes a virilidade ou poder da masculinidade a ganharem forma na minha forma.

A Mariana diz que viu muitas coisas no Largo…

vi o teu corpo sem território

vi-o em muitos lugares

vi-o a andar quilometros sem fim

não me esqueço do sentar…

corpo viajante

a cruzar mundos e terras

Continuamos o caminho!

Desde há algumas semanas ….em Feveiro e Março…

Pareceu-me muito pertinente caminhar em mini-rotas como aconteceu pelo menos aqui há umas semanas atrás. Não pelo facto da rota ser grande e longa, mas porque parece que se foi estando com mais calma e atenção em cada lugar. Ou se calhar foi o meu corpo que ouviu isso nesses momentos!

Seja lá como for, tenho-me perguntando se vamos mesmo para um lugar sem saber o que lá vamos fazer ou se já levamos uma forma de lá estar. Não que ache que se deva inventar coisas criativamente novas para cada caminho e lugar, mas porque por vezes no meu corpo oiço mais repetição, hábito, maneira de rotar, que escuta sem saber realmente o que transpira ali naquele dia. São perguntas que tenho em mim e que queria partilhar! Obrigada!

E continuando…

Dançar no mercado foi naquela sexta-feira, uma surpresa  parecida com áfrica no corpo! Não sei. O espaço estava a puxar pelos meus músculos, e pelo traçar, rodar, recuar, naquele amplo espaço do mercado, e por entre os caminhos laterais, perto das bancas vazias ao fundo com o rio nas costas, junto das vendedoras…fui sentindo meu corpo dançar, o corpo da Mariana dançar, o corpo da Sofia dançar, enquanto algumas pessoas conversavam no meio, ou escreviam e desenhavam nas bordas. Vestido branco. Dancei com elas, sentindo as nossas pesquisas passeando por questões diferentes mas em conversa. Membranas diversas. Ali parecia que o espaço era bem mais forte que as pessoas.

Seguiu-se. O cotovelo estava aconchegante com sol. Vestido branco. Apareceu-me de novo África por entre tantas coisas. Cotovelos. Pernas. Bacia. Derme. Foi interessante sentir meu corpo outro ali, com o cotovelo tão distinto do mercado, e ainda assim convidar-me a ouvir o que permanece do que tenho andado a dançar. Parece que convocar a dança que  vai sendo no meu corpo a conversar com lugares com quem ela se sente empática, é um caminho que me chama a atenção. O cotovelo estava com paisagens várias achei, concentradas ali naquele espaço. Ali me pareceu que estavamos todos fragmentados, em lugares diferentes, tentando estar no mesmo cotovelo. Fiquei a pensar no que temos de comum ali, para além do convite de fazermos a rota. Engraçado perguntar isso ! O que tem o mundo de comum com o mundo?

Estudar embriologia na segunda semana é o quê? Não estive. Estava a estudar mais longe. Quem quiser partilhar estou a fim!!

Não estava porque estava em Montpellier. Estive em Montpellier de novo e volto para a semana…mesmo antes da semana com vocês fiadores!!!

Dancei por lá, com minha amiga e colega Felicia, numa sala. Encontrando-nos apenas durante algumas horas. Dançamos há muitos anos juntas e é curioso como em nossos corpos sempre dançamos o encontro e nunca sabemos como ele é e ele nunca fala das mesmas coisas! No nosso encontro revela-se sempre o encontro do desconhecido.

Dançámos juntas de novo, na praça Plan Cabanes em Montpellier, a tal de que falei lá em cima neste post! Fui estando e investigando este lugar durante uns anos e daí nasceu um duo dança-tecido sonoro, que espero partilhar com quem quiser em Maio aqui em Lisboa! Foi forte e doce. O corpo a escorregar para a dança que emerge e o movimento passou a ser de todos e todas, os corpos, tornaram-se visíveis, foi simples, possível, o corpo foi mesmo ele próprio o movimento, pensamento, acção. A dança actualizou em nós essa criação que nunca antes dançaramos ali na praça que a criou junto. Foi muito interessante observar a especificidade do encontro naquele lugar, do encontro com os gestos que com ela criei e re-cocriei o tal duo.

Voltando para Montpellier aquele momento trouxe força agarrada em mim.

A força que senti ao dançar na última sexta  no Largo de São Domingos…outro encontro, outros gestos, mesmo corpo, outro corpo! Outra praça!

Praças migrando em praças em corpos migrando nas permanências das praças…

Inté!

Bem haja!

sara

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