podemos arruinar-nos, mas a vida nunca!

Estava a caminhar, vindo com as compras da semana, e tive uma vontade em fogo de escrever. Mas entretanto o meu gato otto tinha fugido para o vizinho da cave, e como não estava ninguém em casa tivemos de por um banco alto, perder o chinelo, pôr o gato numa caixa de fruta e arrumar as compras, chega a pati doentinha, cheia de compras também, e lá tive de a ajudar e por o arroz, agora carolino a cozer. A vontade ainda não se foi embora alguém me chama, respondi e lá vou eu.

Podemos rebentar com o mundo todo com ogivas nucleares, declarar guerra, estourar os miolos de todos os seres aos que chamamos vivos. Levantar bancos e campos de tortura, arruinar as matas com fogos e motosserras. Aniquilar as águas potáveis, fechar todos os canais da vida, das pedras e do ar. Impossibilitar viver juntos, destruir todas as criações de aprender, de educar. Corroer todos os laços, pregar o fim dos tempos, chorar cheios de culpa e deprimirmo-nos até ao caixão. Enterrarmo-nos, gritar revoltados, apontar o dedo á inutilidade dos velhos, pobres, doentes. Ranger os dentes ao inimigo que criamos dia-a-dia. Implorar aos deuses a salvação

Deixei o arroz cozer de mais

Podemos fazer, criar, ser as coisas mais desesperadas que já atravessaram à face da terra, e que tiveram a possibilidade de ver isso. Levantar armas uns aos outros, fazer uma guerra civil em Portugal. Incendiar as colheitas de trigo e milho. Tapar o sol com nuvens negras. Reclamar de tudo, dizer que a população é sonâmbula áspera, zombie, que não existe amor.

Mas uma coisa tenho certo. Que mesmo que façamos estas e todas as coisas asquerosas que vulgarizam a vida que há no silêncio das pedras; esfolemo-nos vivos em carne ensanguentada, o Movimento proliferará constante, embrutecido de vida, nas espirais que vemos nas ondas do mar, no empurrar que vejo nas patas do meu gato para saltar, na queda livre que vi no pardal à frente da minha janela, no arrufar que vimos no som dos vulcões, no brilho livre da luz que chega aos meus olhos das estrelas e da cor da tua pele, do levantar a calçada e os telhados das ervas.

Podemos inventar coisas novas, fingir que somos portadores de verdades, perverter, copiar, romper com modelos a seguir, conceitos, palavras, obras, regras, leis, ideais, mas os fungos da vida não pararão de se evidenciar.

coro

pedro

One comment

  1. sofia

    vamos então nesta ventania a começar o dia, a começar a semana
    estive todo o fim de semana entre acompanhar a minha mãe que está completamente imobilizada e estudar-dançar movimentos que criam corpo
    neste absurdo o amor iniste, como o rapaz que atravessa a praça meio nu, de braços aberttos numa gargalhada
    vejo-escuto.sinto-pressinto-toco movimento

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