largo de são paulo entre o dia e a noite

largo de são paulo, 8 e 10 da noite, sentada no átrio da igreja, o corpo cheio de rua.

candeeiros amarelos nos prédios em volta e os brancos no largo. o dia a escoar. pássaros. o mercado da ribeira aberto com balcões cobertos de plásticos esbranquiçados. o 13 de são paulo fechado com portas de ferro para nunca mais abrir. é dia e noite ao mesmo tempo. as ervas nascem por entre os buracos dos telhados, parecem cabeleiras felpudas nas telhas. de onde estou sentada uma penugem verde cobre a calçada da praça, as ervas também se aventuram por entre as pedras, as árvores ainda despidas.

o ar parece-me lento. não é lento, é devagar. ou com-vagar. essa lentura vagarosa vai caindo sobre cada corpo, mesmo sobre os mais apressados.

um homem zangado lá ao fundo chega-me só em som, mesmo com a zanga e tudo, furando a quietude do ar, transforma-se agora em dois homens zangados, massas de zanga lá ao fundo, num fundo que não vejo daqui.

membranas turvas contornam os contornos das luzes e das sombras e tingem a paisagem de lilás.

nas minhas costas continua a igreja,pesada. o som percorre a praça e dá a volta  junto à pedra. passam as ondas mesmo por trás de mim.

agora um vento ténue entra na cobertura daquela moto e infla o saco como um balão redondo.

escurece mais, aluz eléctrica fica mais presente. as vozes de quem passa já sabem a noite. oiço as andorinhas mas só vejo os pombos a trocar de poiso de uma janela para a outra ou para os ramos nus das árvores.

aparecem as estrelas. passa um senhor que conheço bem e faço-me invisível só para não romper o momento. provavelmente já estava invisível antes. o fumo daquele cigarro pára no ar agarrado à humidade fina. agora as membranas translúcidas vão-se esbatendo, as fáscias do tempo que é noite e dia ao mesmo tempo, ou nem dia nem noite. passam casais de mãos dadas.

um puto de 15 anos corre a rasgar a praça de calças em baixo, o amigo ri. corre de rabo nu pelo largo fora, queixo erguido, peito aberto.

os homens da ribeira empilham caixotes, parece-me ir entreouvindo as músicas ali da rua cor de rosa.

só homens na praça agora. bandos de homens.

lá em cima a janela que tem flores abre a luz branca da cozinha. as toalhas penduradas na corda enrolam-se no ar. o branco é gelado e fluorescente e ainda se vê o vermelho das flores nos vasos. é a única janela aqui que parece habitada. viverá mais alguém neste prédio?

estou a ficar com frio.

a praça parece tão abandonada. há manchas de vinho nos bancos da igreja.

visto o casaco e vou embora. já é noite mesmo noite, o dia está-me no corpo.

a transição também.

sofia

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