uma possível história da rota passada

deixei aboborar a rota, tenho o caderno ao meu lado cheio de vontade de ouvir-falar mas hoje de manhã começa a chegar o que não escrevo, o som grave  quase mudo que percorre o fundo. largar. não agarrar. aceitar e nutrir os afectos que se vão tecendo na inistência-cadência do carrocel sempre a encontrar estes lugares e continuar a ver que os mapas são refeitos a cada momento. amar largando enquantando amar ajuntando.

o café 13 de são paulo, ali próximo do mercado da ribeira, a espreitar o largo e a igreja, no mesmo quarteirão do café tati, não vai poder voltar a abrir. o prédio forrado de azulejos não aguentou as infiltrações e na quinta feira passada começou a desfazer-se por dentro. ainda a semana passada tinha estado com a querida irene que ía mesmo deixar de lá trabalhar porque, embora o senhor manel ficasse por lá, o 13 de são paulo ía mudar de gestão e isso tinha sido a porta de saída dela—-ficou o convite para um encontro lá para maio na casa dela de setúbal para um choco especial que ela cozinha e a continuação da amizade—-a bela do mercado diz:alguém ali do hotel ouviu um barulho, chamaram os bombeiros e tiveram que fechar tudo. o prédio é da caixa geral de depósitos, mandaram sair tudo dali até às 6 da tarde.mmmmmmmmmmm.o senhor manel estava desfeito, desfigurado, sem figura. vejo o senhor manel desfeito-desfigurado-sem figura pelo meio das fitas que impedem a passagem todo à volta do prédio. parece descolado de si próprio, a coluna mais torta do que antes, encostado à filha grávida. ai ai uma vida de trabalho acabar assim. mas também nunca estaria pronto para sair dali. o 13 é a sua vida. escrevendo à máquina o menu do dia, conversando com os clientes, percorrendo o mercado a buscar o que vai fazendo falta à cozinheira fernanda.

para mim é um caminho esburacado, a ausência do 13 na rota, para ele, para o lugar,……

ainda não são 9 e meia da manhã, estou no largo de santo antoninho, sentada na cadeira-antónia, em cima da pedra do chafariz, com um olho nas escadinhas da bica pequena e outro na bica grande. vim caminhando pela rua da boavista atenta a estas saídas-surpresa que a rua vai abrindo para o lado como se fossem pelos, ou pés de uma milípede. travessas, becos, esconderijos, ruelas onde só passa uma pessoa de cada vez.

o sol deve estar quase a aparecer por detrás daquela casa do lado do meu estômago. a casa onde numa janela estão umas mãos e uns pés a cortar unhas, mãos e pés sem ninguém à volta. tem chovido tanto, o sol vai recortando a árvore pelo lado da calçada. apanha aqui o número 4 do lado do meu fígado, o 5 já foi um dia porta mas agora é só janela e assim salta logo para o 6 e para o 7.  da escadinha corre a cadela sissi, pequenina e rápida, uma história de amor que erika me conta enquanto sissi passeia e se esperguiça ao sol. um amor que a trouxe do sul da américa aqui para a bica. olhos verdes, sorriso aberto.

deixo-me encantar pelo silêncio da manhã, os mistérios que espreitam por de trás uns dos outros. atrás de mim uma daquelas obras que vai pôr lisboa mais bonita, mas nem eles fazem barulho, estão de volta de uns tubos no chão. vai chegando a marta da crinabel com a carolina,o filipe cantor,o tomás que está cheio de sono e até dorme em pé e o carlos que me abraça com muita força das saudades que já tinha. saio com  a carolina a trepar por onde as pernas nos levam, vamos fazer asneiras? sim. olha qui, agarra-te ao ferro. deixa-as passar bernardo. o bernardo larga os tubos para nos deixar passar. não é preciso, porque não continua que nós passamos bem. porque também gosto de brincar. sabe, tem o nome do meu pai. e ele também trabalha na obra? por ser bernardo? risos. agora está reformado e lê, lê lê. olha o que escrevi eu, diz a carolina, é para o pedro pôr na próxima fanzine. filipe cantarola. vão chegando mais viajantes. bom dia. bom dia. o dia vai abrindo, seguimos para o mercado, uma das bancas longas onde a alice costumava estar está deserta.foram para esse lado de lá. bom, este lado do mercado está a ficar muito sózinho. empurro o carro de rodas da bela e vamos de passeio. ela não quer que lhe pague os alhos, nem pensar, são tão bons, tao rijinhos. pintamos os olhos. lisboa a mudar tão depressa. ou sou eu que estou a ficar mais lenta.

seguimos ao largo de são paulo, lá passamos no não café 13 de são paulo todo trancado a ferros. o vento está poderoso. muitos viajantes poisados na fonte. o outro procura o vinho que escondeu num buraco. a migração poisa um pouco antes de seguir para a travessa do cotovelo.

sinto o corpo aéreo. flutuando. com o vento que está ainda desapareço. daqui a pouco vamos voltar aqui para a filosofia na mercearia. muito gostou a ana luisa janeira do desafio de filosofar por entre as farinhas e os azeites. a alda estava encantada com o ajuntamento de gentes e pensamentos mas a lídia queria era participar da conversa, pensar junto, ainda na segunda feira passada tinha estado no estúdio branco do cem para um funaná imparável, agora escutava atenta que o rizoma é um caule como o gengibre.

circula a foto do osvaldo filho que é lindo e que deu o nome ao chapéu de chuva-sol colorido como o arco-íris. uma dia pode ser que os osvaldo filho venha nos conhecer. é um homem lindo e zangado com a forma como são tratadas as pessoas oriundas de outras terras. os que não são nem de lá nem de cá.

seguimos para a praça do comércio. o vento está tão forte que dá para nos deitarmos no ar. as gaivotas voam para trás, a pele da cara aperta-se. a lu, o ibon e o nuno estão de volta da criação walking and talking, a camila dá voltas à praça com um vaso que trouxe do mercado. vamos aparecendo e desaparecendo. aparece-me um escrito que trabalhei em 2005 sobre as 3 praças(comércio-rossio e figueira), quando começámos o pedras. a praça do comércio era o tempo, o                  t  e  m  p  o      tenho presente o absurdo que era para mim ver os turistas a tirar fotografias——-ao tempo—————

num salto vou com o pedro deixar as fanzines ali nos paços do concelho, queria ver se apanhava o joão que só chega às 2. o energúmeno (que no dicionário diz ser toda a pessoa inútil que encontramos casualmente). mas ele não chega para executar as suas inutilidades e não temos oportunidade de trocar desfunções. fica a fanzine, como uma cartinha no correio. até para a semana. podia ficar aí a cantar, gosto de a ouvir cantar. eu gosto de cantar, já há um tempo que não me lembrava de gostar de me ouvir cantar. curioso.

seguimos para a ribeira das naus e entre a largueza do rio tejo perdemos de vista os outros roteiros-viajantes. diz que a revolução de abril passou aqui na ribeira das naus. o rio faz uns caracóis de ondulação. alguns roteiros devem estar nas desgraçadas oliveiras num balde. um dia o pedro sonhou que os avós dele vinham salvá-las nuns burros, gostava que ele um dia contasse esse sonho. é uma linda história.

a rota termina na estação do cais do sodré, estamos agrupados em micro ajuntamentos, a sossegar da ventania que me levou o ganchito que trazia no cabelo. para a semana encontramo-nos para começar a criar o programa de rádio.

passam uns para cá e outros para lá, quase todos em passo rápido, e os migrantes em poisio, agrupados em pequenos nichos, como cogumelos.

são 3 da tarde, começo a trincar uma maçã gigante enquanto caminho de volta à mercearia para a conversa-filosofia.

mas isso é outra história.

o vento do dia aninha-se na roupa e na pele e à noite cheiro a praia, aquele cansaço feliz de quem chega ao banho depois de muito correr e nadar e conversar e estar calada e brincar e escutar e amar e esfriar e aquecer. como um segredo de liberdade.

até breve

sofia

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