o resgate das oliveiras

Colocaram junto ao rio, bidons com terra e dentro aprisionaram oliveiras. Os bidons de diferentes cores ocupavam uma extensa área duma plataforma de alcatrão junto à água. As pessoas sentavam-se a rodear os bidons coloridos, pedaços de gente ao sol. O plástico já estava baço, e outros rituais atmosféricos que se esfregavam pelo plástico o iam quebrando todos os dias. As oliveiras pequenas sabedoras do espaço que tinham deixavam que a vida latejasse só naquele perímetro de plástico colorido, a receber o sol e a maresia, e nas raízes envoltas em terra tépida tentavam encolher as raízes.
O meu avô sentado na cadeira, numa terra onde as oliveiras cresciam-lhe nas mãos e nos olhos, com a sua idade, ou outra, latejava em se libertar daquela trombose que o vestiu de inútil, tépido, numa cadeira de rodas, onde ia encolhendo as suas raízes.
Num fim-de-semana em que cheguei à terra, compartilhei com eles, minha avó e meu avô, que haviam umas oliveiras presas em bidons coloridos junto ao mar. E que uma argola presa a uma rocha falou-me em argolês chorando a prisão injusta das árvores que respeitavam a sua condição em silêncio. Foi a essa argola que Nietzsche deu o único exemplar Ecce Anulus.
Meu avô junto à lareira tem uma tosse que fica vermelho como o pai natal, e minha avó, muito roliça, ata o lenço preto à cabeça salientado os seus verdes olhos e o branco amarelado do cabelo. Juntos no segredo da sua vontade, vão pé ante pé, com o seu caminhar pesado. No roldar a cadeira meu avô vai em direção a esse fenómeno das oliveiras que lhe revolvia as tripas como um roncar de um porco que vai para a matança. Sem eu saber, no silêncio do meu escândalo, entram na plataforma de alcatrão. Minha avó com a foice grita: Ai seus calmeirões que vos…rais partam estes ordinários, seus courões.
Meu avô lá atrás com a bateria da cadeira a faltar, mas com sua força de um credo divino, levanta-se e vai de joelhos até ao primeiro bidon e arranca as oliveiras com a própria mão daquele infortúnio escandaloso, Aparece o burro preto do meu avô, que ressuscitado pela seiva da vontade das oliveiras, carrega dez em dez levando-as para a horta que fica à frente da casa dos meus avós.
Minha avó com os seus braços de tronco grosso e sábio, atira a enxada ao chão, abre a cova… os dois poem as oliveiras na terra santa, prometida.
Na última enxadada minha avó acorda e meu avô também, juntos no mesmo leito.
Vou a correr ao pé deles. Sorrindo um para o outro. Abro a janela do quarto e à frente uma luz da manhã rebenta pela janela com o canto das azeitonas, folhas e flores das oliveiras que estavam livres na terra do amor das suas mãos.

pedro janeiro 2012

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