Fala

Quando é que um corpo começa a falar?

Quando lhe perguntam algo, se calhar fala alguma coisa… mas antes de saber articular palavras, de onde vem as palavras que saem pela boca? E porque falar?

É curioso estar com muitas pessoas numa roda de conversa e encontrar diversas qualidades de fala, da relação com palavras que cada boca faz, a intensidade que vai vibrando no ar enquanto a voz se abre no espaço de dentro e de fora do corpo… há quem fale muito, há quem fale pouco… há quem fale coisas importantes, há quem fale sem que se entenda… há quem se preocupe tanto com o que se fala que nem fala… há quem silencia…

E quando essas pessoas dessa roda tem entre os 2 e 47 anos? quem fala? O que? Quando? Porque? O ajuntamento de pessoas de tão diferentes tamanhos faz desenhos no espaço que sinto como ondas que mancham, borram, desestabilizam algumas plataformas de entendimento. Se tais perguntas surgem que sejam descompromissadas de espaços preenchíveis de respostas… quem é que sabe falar e quem não sabe? A ilusória conquista de portos seguros pelo poder articular palavras, poder organizar a fala encarrilhada e seguida de lógicas pela ginástica língua-lábios-voz e o afastamento daquilo que me conta no acontecimento-corpo que nunca perco a disponibilidade de aceitar que a falar não é algo somente programado, já elaborado, conquistado… é um prolongamento do espaço do corpo, é uma latência. Mesmo o corpo que não se pronuncia em palavras porque tem 3 meses de vida, não se cala… os movimentos que criam corpo, não se separam das palavras, as palavras não vão separando o corpo do espaço onde este está…

acompanhar pessoas que ainda não falam por palavras articuladas, que ainda não trazem a voz modulada e com extensões já trabalhadas num modo que condiz com aquilo que se quer dizer, estar próximo a pessoas que ainda praticam a criação de movimentos que são o antes da fala me ajuda a não afastar-me da possibilidade da fala para além daquilo que se quer entendível, de comunicação aberta a outros níveis e menos preocupada na passagem frontal de um conteúdo daqui para ali – aqui talvez as diferentes dimensões dos corpos seja um potencial desses vários níveis da comunicação, me ajuda a permitir as palavras por outros movimentos, por não palavras… me ajudam a não achar que estou num lugar onde já não aprendo, já não cresço, que onde estou não é fixo e muito menos desligado dos diferentes lugares onde agora pousam as pessoas que caminham comigo… e que o que falo não sai ileso disso, não é só meu, e também não é….

Lyncoln

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