é mesmo outro corpo o que atravessa enquanto é atravessado

transição—se abrirmos os olhos aos esquemas de previsão para a destruição galopante do mundo como o conhecemos é provável que se aperte um bocado o coração—pensar, e principalmente pensar-com tem aparecido como um exercício forte de densidade de corpo, é esse fazer que não provém de uma ideia externa ao próprio experienciar de atravessar que quero continuar a praticar. a acção faz-se presente na afinação da atenção ao que atravesso enquanto sou atravessada. a visão ampliada desses olhos abertos que não se armadilham em remediar sintomas, em anestesiar os sinais mas em atravessá-los com a disponibilidade de sentir que mesmo os sinais estão em transição e que aquilo que ainda agora me indicava determinado comportamento agora suporta um outro ou acompanha o nascimento de uma outra vibração.

essa ampliação implica simultanear o tempo, não gerar “coisas” que não têm em si a pergunta do passado-futuro enquanto são presente. não falo de analisar causas e consequências mas de ouvir no momento do agora o ressoar amplo.

ontem no maria matos estive numa conversa sobre transição. entre várias outras questões apareceu aquela básica de, por exemplo, um telemóvel ser construido a partir de uma série de elementos que constam na tabela periódica e que até são identificados como raros, no entanto a capacidade de os reciclar é quase impossibilitada logo na própria concepção do objecto. é o mesmo tipo de forma de pensar que vai para a cozinha fazer uns bifes “como deve ser” e depois gasta uma garrafa de azeite, deixa tudo espirrado de gordura, desaproveita metade dos alhos e sai da cozinha com uma lixeira de fundo que nem três dias sem fazer mais nada poderiam aligeirar. é um agora que não ressoa para além da urgência de existir rasgando. é um outro corpo que se cria no atravesssar enquanto é atravessado, é um outro corpo que enquanta.

não falo de aflição que tudo prevê ou tudo justifica, continuo a praticar que a acção se concretiza numa amplitude que não se prende nos porques e paras, mas é uma acção que escuta a sinfonia enquanto apura a afinação daquela vibração específica. é outro corpo. insisto, o encontro implica a deformação de todas as partículas envolvidas.

sofia

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