Rota Sexta Santa

Páscoa em Lisboa. Raminhos de folhas de alecrim com flores lilás para dar sorte são vendidas a 1 euro. Eu compro ao invés do chocolate. Ao invés de estar em casa estou na rua, ao invés de estar com a minha família estou com pessoas.

Não a páscoa em si, ou o que isso significa prá mim, mas um maneira de estar que me remete mesmo ao termo de origem remota da palavra Páscoa =Pesach, cujo significado é passagem.

Sinto-me mesmo de passagem. Um olhar que atravessa, um abraço que não apega, um permanecer em cada momento como se fosse o último. O mais interessante é que se fosse mesmo meu último dia de rota talvez eu não sentisse isso. É uma brincadeira que faço com os meus sentimentos. Mas uma brincadeira séria, que faz sentido.  Então percebo tudo como se fosse a última vez.

O sorriso da D.Piedade, O pentear de seus cabelos, A mancha em sua camisola, O cheiro de um bicho qualquer sendo preparado na cozinha se mistura com o perfume da Sofia, a voz da margarida, o som do salto alto da Zornitza, a risada da Camila. Meus sentidos vão passeando por entre coisas aparentemente insignificantes.

Caminhar entre a musicalidade da garoa de Lisboa. Agarrada ao braço ora da Susana ora da Mariana, apenas para estar junto. Porque o tempo passa tão depressa, que sinto logo a saudade que vou sentir desses encontros ao pé da chuva. Caminhar entre poças em direção à travessa do Cotovelo. Encontrar a Mar (esse encanto de criança), brincando no chão do fundo do mercadinho. O convite é esse, brincar com a Mar. Ficar até nossa despedida com a pequena  Mar e sua boneca dentro do mercado. O mercado se transforma em sala de aula. Eu sou filha e ela é mãe. De repente não mais mãe não mais filha, mas admiradora dos anos de Margarida. Comemorar anos dentro do mercado? Sim, e com direito a frases surpresas de F. Pessoa.

Seguir seguindo, vou caminhando e vendo a mudança do tempo, a permanência sutil do sol, que dura pouco. Logo a chuva irrompe nosso percurso, mas como tudo é muito fluido, calha de ser hora do almoço. Almoço de sexta feira Santa.    Cantar sozinha Chico Buarque. Cantar em coro músicas que a margarida ensina. Cantar na iminência da presença de alguém colocar a cabeça prá fora da janela. Cantar músicas da infância que nem lembrava mais. Lembrar que essas coisas, essas pequenas coisas que é cantar pro coelhinho da páscoa a gente nunca esquece quem dirá uma rota de páscoa chuvosa e alegre. Uma alegria que pulsa internamente, que mantêm meu calor interno, eu em brasa.  Eu que vejo uma lágrima escorrer em minhas mãos. O corpo testemunha tudo.

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego…

(Chico Buarque)

Thiane Nascimento

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: