a rota, o ajuntamento, a chuva e outras histórias

lap dance-erotic show reflecte-se na poça de água da rua cor de rosa.

o dia seguinte, mesmo santo como esta sexta feira, conta estas histórias de copos e cigarros e apalpões e música alta. ela anda a limpar o caixote do lixo. diz que a vida vai difícil, que vai aceitar trabalhar também no bar da frente, que vão ser 3 horas por dia mas que ela desconfia que não chegam, que ela é muito rigorosa nas limpezas. se ganhar trezentos euros na volta vai tudo nos impostos. às 9 e meia vai ali a santa apolónia à carrinha que distribui comida e tenta escolher a melhor, que às vezes vem azeda, mas que fazem um grande trabalho estas pessoas que apoiam quem está à rasca como ela. não dá para comer com o que ganha, já não se prostitui tanto mas é também que não tem tempo. quer umas calças de ganga que já não tem roupa. e ri-se, tem muita força o riso dela. sentamos a mar que tem 3 anos e também veio rotar num banco alto à porta do bar enquanto ela limpa de baixo dos bancos, limpeza minuciosa. quando chegar quem vem à noite nem tem ideia do que aqui vai de cuidados. a bola de espelhos guarda os seus segredos lá em cima no tecto. entram e saem outros que trabalham na rua, conversam e trocam favores, leva lá esta caixa, ajuda aqui com este sofá, então e encontrou hoje alguma coisa? a joana traz a harmónica de beiços da mar e ela toca suave. lá fora, que afinal é mesmo aqui ao lado da porta de vidro aberta, continua a chover. uma diz que é  cristo a chorar, a lavar os males do mundo.

a rota desta semana começa no largo da severa. para mim começa já enquanto subo a calçada do combro e oiço ressoar as voltas que aí vêm mais para os lados da cruz dos poiais ou do largo de são paulo.

um grupo de turistas grita com a chuvada violenta. lisboa está cinzenta, a água corre com força por dentro dos carris dos elétricos, quero comprar uns ovinhos de chocolate para levar à piedade. desconfio que a margarida faz anos hoje. é sempre por volta desta última semana de março que fico com esta sensação que está quase a ser o dia de anos dela…atravesso o chiado, a rua do carmo, o rossio, a praça da figueira, entro na rua da mouraria e já começa o cheiro da densidade dos outros que também vêm rotar. passo na dona arminda da rua do capelão e está a margarida de costas a apreciar as rendas. bom dia, bom dia! sigo para casa piedade, não sei porque não entro, talvez sinta que aquele momento ali dentro de volta dos panos está muito redondo. não pede a minha entrada. trago as costas da margarida e o sorriso deliciado da dona arminda passando os dedos pelas laças do crochet. a casa do fado, onde a severa terá vivido e de onde se terá atirado da janela para os braços do marialva é também a casa onde vivia a dona maria, a pessoas com mais idade da mouraria, que morreu a semana passada. está quase pronta, muito branca e cheia de esquinas.

a piedade ainda está deitada. sente-se muito mal muito mal, mas até está com uma cara muito bonita. quando chega a margarida damos-lhe a caixinha de chocolates em forma de coração, ai não gastem dinheiro comigo, vocês também não têm, obrigada, que lindos que são os ovinhos dentro do coração.

agora vou temperar um borrego que mais me parece um coelho, com cabeça e tudo enquanto a margarida lhe arranja os flocos para comer. não é bem a minha especialidade, pôr alhos e cebolas e salsa e pimentão e vinho branco e sal por cima de uns nacos de carne, de uma cabeça com olhos arrancados, não é bem onde me vejo mais feliz…mas quando mostro o tacho da carne temperada ela fica contente que vale a pena, até acho bonitas as cores…chegam os outros roteiros, vão passando pela mini casa da piedade, abraços e beijinhos e lava a loiça, e massaja os pés e calça as meias cor de rosa com brilhantes que lhe demos pelo natal. conversa, conversa, sossega, sorri, está mais coradinha. os viajantes vão seguir caminho.

boa páscoa querida amiga, boa páscoa meus queridos, obrigada, obrigada.

demorámos mais no largo da severa e assim já só passamos de rasgão no largo de são nicolau. a viúva alegre vai mudar de lugar e tem tudo a 50%, que lindo vestido prateado!é engraçado como este ano sinto também a delicadeza por entre as rugosidades do corpo que acontece na rua. parto para estar na rua sem proteção, sem me defender dos empurrões, trago a roupa-corpo que o dia pede, mais quente ou mais fresca, com o almocito e o lanche na sacola, a garrafa de água, hoje as botas da chuva que me deixam passar mesmo dentro das poças. não é indiferente como considero a rota cada dia, mas não me endureço para sair. venho como estou no dia, mais frágil ou mais calada ou mais brincante…. e este ano sinto que está possivel um corpo grosso e forte que até devolve vento à ventania mas também uma delicadeza subtil. o tal corpo-enquanto.

entramos na travessa do cotovelo, são mesmo os anos da margarida,com um bolo cor de rosa cheio de mini velas que a susana fez em casa e mais uns bolinhos que a margarida trouxe cada qual com uma quadra de um livro mais esquecido de fernando pessoa. se fosse eu já estaria a anunciar a festa há semanas com a margarida é assim mais pelo silêncio. os amigos vão-se ajuntando, entrando pela rota, um traz uma flauta pífaro, outros trazem a sua amizade incondicional. todo o percurso parece um acordeão. em foles que apertam e abrem, uma sensação misteriosa. quero estar calada.

a tal força-delicadeza que está a aparecer convida-me a dançar.

no 13 de são paulo paira tristeza e segredo, parece que vai mudar de gerência e ainda não se vislumbra o ressoar dessas mudanças, mas são muitos anos de dedicação diária. a irene leva todos os dias uma hora e meia a chegar e uma hora e meia de volta a casa, só para estar ali ao lado do senhor manel, o homem mais bom do mundo. vamos caminhando e ouvindo,mudanças é o que não falta hoje.

seguimos.

escadinhas da bica grande, agora tão limpas. deixa vir os santos deixa!ainda por cima andam a tirar os contentores do lixo. devem ir pôr outros!

isso é que não sei. vão mudar as notas de 5 euros que vai ser uma grande confusão para os mais velhos——–mas dos contentores de lixo não sei nada———–largo de santo antoninho, chuva. a lu e ibon resguardam-se debaixo da árvore, parecem outra árvore.

susana dança, pedro quieta.

a chuva sossega e ajuntam-se canções a várias vozes.

quero uma ameixeira e quérume

tomateiro ao pé dos bugalhos……

seguimos. largo de conde barão, agora as cantigas das saias lá dentro de um café.

largo de são paulo, a conversa de estar calada abre-se ainda mais, alguns falam de uma experiência num processo de criação artística, a cozinheira fernanda brinca com o carro de mão por entre os carris dos elétricos. os pombos que se tnham resguardado da chuva ostentam a plumagem redonda os outros passeiam pesados de água e pó.vejo movimento. vejo movimento.

quero estar calada.

a rota continua pelo ajuntamento na taberna da isabelinha e ainda desliza para o largo de são domingos para um encontro dançado onde o som passeia  perto e longe em simultâneo, enquanto a margarida continua a festa de anos, continua a ser o dia de os anos dela!, a criar casa com os amigos lá na taberna. devem ter chegado o costa, o luis bué e o da guitarra depois de termos saído porque parece que pensavam que o encontro era mais tarde. o luis vinha  a correr a virar para a cruz dos poiais quando eu e pedro vinhamos já rumo ao largo de são domingos, olha que pena! e que importante que é para nós este encontro.

quando chego a casa já é noite, sinto a noite quando deixo de poder ver as letras do livro do zizek “viver no fim dos tempos” que venho lendo enquanto caminho, outra vez descendo a calçada do combro.

sofia

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One comment

  1. elisabete

    Andei tantos dias de casa em casa de família em família de refeição em refeição de ninho em ninho… que me tinha esquecido de mim mim. sinto-me renascer com a descrição desta vida em comum e que persiste em habitar os espaços públicos que deixam de ser só de passagem. Isto assim também é Páscoa, uma páscoa sem redomas.
    A ver se me junto para a rota que me acorda – se não me juntar à rota, vou-me sempre juntando aos textos que dela brotam!

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