(de)morar o olhar / Lg. de São Domingos

Dentre tantos trajetos traçados pelas ruas e praças da cidade, vão se desenhando um ritmo que não permite parar por muito tempo. A cidade parece não mais oferecer locais de pausa, de repouso a não ser quando se encontra uma esplanada, ou um café que tenha vista para a rua. E me parece ser um local bastante procurado, oferece aquilo que chamo de conforto e individualidade – conforto porque há sempre uma mesa-cadeira onde pode apoiar suas coisas e alguém que lhe sirva algo, e individualidade porque nenhum estranho obtém espaço para aproximar.

Hoje no Lg. de São Domingos, espaço tão múltiplo de vivências e experiência, de povos, cores, uma travessia de multidão, flashes, cafés e o Teatro D. Maria II, parecia que os corpos que passavam por ali escorriam rapidamente daquele local, salvo os que paravam para apreciar uma ginja (…) enquanto outros estavam por ali permanecendo por um encontro ou uma conversa. Cheguei lentamente, permiti um tempo para perceber o local, de realmente viver seus cheiros, ritmos e sons. Demorei ali.

Demorar o olhar, o tempo, apreciar o cheiro. A diversidade de cores de pele, de roupa de objetos, os ouvidos atentos a todas palavras (sons), escalas de tons. Haviam os que permaneciam, habitavam o lugar-praça como antes era usual estar no coreto da cidade, entre amigos, para nada e uma infinidade de ambientes se instalavam.

A pele que um dia foi estalada hoje estava ali a bordar num ambiente comum, e manuseia o couro e cria, as mãos abrigam o ofício cuidadoso de tecer-fazer objetos. Ao centro um memorial ao massacre (algo que foram recordar muito depois das injustiças) contra os judeus. O largo ocupado por diferentes comunidades africanas, tantos tecidos, texturas (também)sonoras. E os momentos transitam, organizam-se grupos (e trocam de lugares um entre outros), contadores de histórias, noticiantes, donas-de-casa, mães, passeios.

E os olhares. Apreciava cada um em sua demora, o meu, o deles, os que passavam. Diferentes intensidades. Curiosos, distraídos, incomodados, sorridentes, espantados, espelhados, concentrados, sorridentes, ingênuos, apressados, inconformados, perdidos, estrangeiros, sonhadores, atenciosos, espertos, sofridos, acolhedores… luminosidades. Mas haviam os que ali permaneciam, demoravam. Eu demorei, demorei meu olhar. Fiz daquele momento um lugar para meus olhos morarem, demorarem.

ACR

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