escre-vendo

uma semana depois de ter dançado na praça do rossio, fui escre-vendo

hoje publico.

Deslizam os sons aquosos do chafariz, os círculos as pombas e gaivotas, o andar fluido dos seres que vão atravessando a praça, longa e aberta. Não quero fingir que danço, que o movimento se propaga. Quero ouvir a chegada de mim à praça e da praçamundo a mim. O sol lateja, abrindo e fechando o espaço, aquecendo e arrefecendo. Quero ser denso, neste encontro que convido, chegar e abrir o espaço em mim expondo o corpo ao movimento que acontece, acontecendo. O espaço generosamente me recebe, as sensações que transitam abrem-se na possibilidade de estar com elas. Mas na sinceridade da pergunta, na inauguração de ver os seres a existir e vendo-me existente, percebo da continuidade da pergunta, de me manter vivo, sem razão, sem sentido algum, a vida não tem significado, mesmo que significados tenha. Toda a não razão de ser é a razão em força de ser. O meu corpo não tem densidade em ver-se no erro do gesto, vendo-se no erro. Acompanhar-me na vivência do acontecer, na proposta, largando as camadas e lençóis de significados, vendo-me despido

ajuntamento

Posso falar da poesia do sol, do deslize das asas pelo ar, dos círculos de sons aquosos, dos trânsitos dos seres, a fluidez generosa da praça, mas a pergunta de manter-me vivo, sem fingir a existência, vendo escorrer-me na amplitude da existência dos outros seres que não sou eu. Insistir vivo sem ver, muitas vezes o evidente, que nem abismo é, um hiato, uma volta. Ver a arrogância da vontade omnipotente, ou do abandonar-me na vontade do vento. trabalho é eterno

Não sei ver o que vejo. Pergunto se o meu corpo sem uma prática e com a pergunta ouve

Ouço a possibilidade, toda a potência de voar, sem esforço algum. Sem prática de voar. Ouço toda a potência e o desejo de voar, da fluidez dos círculos aquosos, das presenças flutuantes, de luz, brisa, asas, espaço. É tão visível e palpável, tão perto da matéria dos sonhos, a porta toda escancarada. E vejo o corpo, na sua finitude, aperceber-se vivo além da fronteira, vendo-se existir ao ver o seu não-corpo existindo com ele. É maravilhoso, ver toda essa potência acontecer, porém a prática desse voo demorou séculos em especializar-se em gaivota e pomba, luz de sol, desfiladeiro de nuvens, milhares de anos, eras. Vejo a arrogância de sem prática, sem este corpo adensado, respirar esse vislumbre como um dado adquirido, quando nada é adquirido, nem o “meu” corpo, é trânsito e passagem de matéria mineral, iões, átomos, sons, fotões, desejos, empurrões, puxões, espiralões, respirações. A vida sustenta este corpo que vai escrevendo este texto, que suporta o caderno, que vislumbra, porém ver-me na impossibilidade do possível aberto à “frente” não é possui-lo. Acompanhar esta amplitude e ver a amplitude que todos os seres abrem do movimento que acompanho mas não efetivando esse ou aquele movimento, mas este que insiste em latejar neste mim, neste ser que vou vibrando, adensado, neste e naquele momento.

há caminhos que só cada um vai, e se pode acompanhar. questionamentos da vida.

o silêncio das ervas, dos limos, do pó, do buraco

Quando estava na praça do rossio, já tinha lá estado, com e sem convite a que outras pessoas lá estivessem comigo. Esta quarta, 22 de março, início do equinócio da primavera, voltei a lá estar. Pergunto-me o que estou ali a fazer, e porque convidei aquelas pessoas a estarem ali. Aquilo que queria comunicar aparecia sem sentido, nem razão, a vida não tem razão de ser, e nisso tem toda a razão de ser. Continuei. Caminhei. O que é caminhar? O que é comunicar? O que é convite? O que o meu existir comunica, continuamente afinando na pertinência do acontecer que vai sendo? Há caminhos que só cada um vai e se especializa em flutuar. Há momentos que não confio nas flutuações da minha existência, confio nas perguntas abertas no espaço. danço nesta dúvida constante. Aquilo que adenso como me acompanho com confiança, como largo esses adensamentos, como os manter, qual a escuta, a afinação? Não há mal nem bem, mas sinto uma persistência nestas questões. Qualquer coisa de responsabilidade nas relações humanas

A vida a atravessar as linhas das palavras suportando-as como as fibras dos músculos

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as fotos foram da comunicação do ano passado, sendo que a pergunta não tem tempo

pedro

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