especialização

no estudo de embriologia é muito evidente o caminho entre ser o que for e ser aquilo.
o encanto pela especialização traz uma insistência que os encantos costumam trazer, a leitura das linhas grossas e o esquecimento de tudo o que não vibra aí. digamos que o encanto, mesmo que encantador, é muito grosseiro e desajeitado…
pois a especialização em sermos o que vamos sendo, nas suas mais subtis inflexões, tem-me ensinado muito sobre esse vasto campo de não especialização que continua em potência por entre a especialização. o estudo do gesto enquanto ele próprio, se não me deixar encandear pelas “linhas grossas” conta-me histórias dos movimentos que não se fizeram gesto e que. de qualquer maneira, continuam trepidando para que esse gesto especial vibre no seu mistério de ser-não sendo.
se os olhos se especializam em ver é porque a visão está presente no movimento que vai sendo corpo, então tocar com os olhos pode ser uma experiência fundamental, não de substituição, pois não nego a visão como prática exercitada na especialização de ver, mas de co-existência, de simultaneidade, de amplitude de estar-com.
o tomas tem síndrome down, normalmente uma “deficiência” é acessada exactamente enquanto uma redução da eficiência. não me parece que essa forma de vida seja alguma vez acompanhada na especialização de ser quem vai sendo mas na comparação com tudo aquilo que eu sou e ela não.
pois o tomas faz uma gestão do seu chi de uma forma alucinante. tenho trabalhado tantos anos na escuta do movimento e até já danço com o tomas há uns anos, e nunca tinha sentido a calma líquida que se vai fazendo tomas na gestão do equilíbrio.
estávamos no mercado da ribeira e brincávamos com os carrinhos de transportar os caixotes.às tantas era a carolina (aqui em baixo na foto com a bébé que mora por cima da mercearia da alda e da lídia)que nos empurrava a mim e ao tomas. eu tinha as pernas dobradas e as minhas costas coladas à barriga do tomas que vinha em pé atras de mim. não nos agarrávamos a nada, confiávamos nos movimentos de ondulação que cada corpo ia dançando na relação com os solavancos e mudanças de direcção que a carolina infligia ao carro.
no entanto enquanto o meu corpo especializado de bailarina sacudia nalgumas mudanças mais bruscas o tomas mantinha-se calmamente enraizado no “chão” do carro enquanto a liquidez silenciosa da sua barriga ondulava quase imperceptivelmente, sem susto.
ainda estou a aprender
confio que o corpo que vai sendo sofia vai encontrando esse corpo que vai sendo tomas e que no encontro entre o ser-não ser vamos aprendendo uns com os outros
sofia
DSCF1375

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